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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

A democracia dos pequenos ditadores - uma visão triste sobre a nossa sociedade

Parece que toda a gente anda em polvorosa com as (novas) declarações da Maria Vieira - que eventualmente podem ser do seu marido, uma vez que é assumido que estes são pen pal no facebook desta -, desta feita, sobre o novo herói nacional Salvador Sobral.

 

Engraçado, é observar todo o encadeamento ilógico que este acontecimento gerou:

 

1.º momento - há um atentado em Manchester

2.º momento - Salvador Sobral profere um comentário sobre o atentado em Manchester

3.º momento - Maria Vieira profere um comentário criticando o comentário de Salvador Sobral

4.º momento - Manuel Cavaco, Ana Bola, Nuno Markl, entre outras 1072389172539817253 pessoas proferem comentários criticando o comentário de Maria Vieira sobre o comentário de Salvador Sobral.

 

Isto pela rama é muito assim, e nem importa aqui ao caso o que é que foi efetivamente dito pelos interlocutores. De referir, que depois também houve inúmeras pessoas a defender a Maria Vieira.

 

E aqui é que chegamos a uma conclusão, para mim, preocupante:

 

Desde quando, é que cada um de nós, enquanto emissor de opinião, tornamo-nos agentes fiscalizadores das opiniões dos outros? Desde quando, é que o direito à liberdade de expressão pode ser utilizado como cobertura para ataques infindáveis às opiniões dos outros?

 

Na minha opinião, vivemos cada vez mais numa era em que todos queremos ser ditadores. 

 

A propósito de uma discussão familiar, discutia-se lá em casa a questão das touradas. Como se tratava de um aniversário e estava muita gente presente e a tomar iniciativa no debate, havia inúmeras posições. Mas mais ou menos a balança dividia-se assim: os mais velhos eram a favor, os mais novos eram contra. Sinceramente, não sei porquê. Talvez o choque intergeracional faça com que nós mais novos sejamos mais revolucionários e mais crentes em mudar o mundo. Sinceramente não sei.

 

O que sei é que eu sou totalmente a favor das touradas. Repito, totalmente. E tenho 25 anos. E mais ainda, nem gosto de touradas. Mas a minha formação de jurista ensinou-me que quando está em causa a discussão de determinado assunto, numa forma referendada, digamos assim, em que se decide se se é a favor ou contra, o nosso gosto pessoal releva pouco. Como tal, mesmo não gostando, pessoalmente, de touradas, jamais seria contra touradas.

 

Acabo de dizer o mesmo que estou a escrever aqui, e foi o caos total. "Explica-te! Como é que podes defender o sofrimento daqueles animais?".

 

Expliquei-me.

Eu sou tão a favor das touradas, como sou a favor:

- da praxe;

- do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a consequente adopção:

- da eutanásia;

- da descriminalização do incesto;

- da caça;

- da descriminalização (e regulamentação) da prostituição;

- da legalização de todas as drogas;

- da desconsideração de feriados religiosos;

 

 

E, acreditem, que sou mesmo. E, provavelmente, desse lado, do leitor, já está alguém a espumar-se todo com vontade de argumentar com ataques ad hominem a coberto da liberdade de expressão. Hoje em dia, e o Correio da Manhã só veio aumentar isso, é sintomático as caixas de comentários de qualquer orgão de comunicação estar carregados de ataques que pessoas a coberto do anomimato proferem contra outras pessoas só por estas discordarem de si. 

 

É absurdo mesmo. E, ainda para mais, quando são figuras públicas a utilizarem a sua imagem e a sua influência para propagarem mensagens ridículas e claramente discriminatórias e pejadas de preconceito. Vejam por exemplo a plataforma feminista CAPAZES, onde uma das suas redatoras escreveu um "brilhante" texto a clamar sobre justiça. Num texto onde podíamos ler a palavra "democracia" numa frase, e na frase imediatamente a seguir dizia qualquer coisa como:

 

"a suspensão temporária do direito de voto dos homens brancos é a única chance de produzir uma real alteração no mundo"

 

 

Entendem agora porque é que falo na "democracia dos pequenos ditadores"? Porque, infelizmente, cada vez há mais destas pessoas. Pessoas que falam em democracia, mas cujas ideias são norteadas apenas por preconceito, discriminação e completo niilismo.

 

A Maria Vieira começou a ser profundamente atacada por manifestar as suas opiniões pro-Trump através das redes sociais. Todo o mundo ficou chocado porque uma figura pública da sociedade portuguesa manifestou apoio a alguém que, vejam-se, foi eleito democraticamente presidente do país mais poderoso do mundo. O que mostra que afinal o apoio dela não era assim tão isolado e desfasado quanto isso. Mas esta profunda crença que nós portugueses temos de que achamo-nos no direito de opinar sobre tudo e sobre todos faz com que, por exemplo, o Cláudio Ramos tenha emprego. E não digo isto como crítica, digo como constatação de um facto.

 

O problema é que esta mentalidade está inviesada até à mais ínfima célula do nosso ser. Temos um líder de oposição - em quem eu votei, digo sem problema nenhum - que a única coisa que sabe dizer, juntamente com a sua bancada parlamentar e o partido aliado é que o atual Governo "não tem legitimidade para isto, não tem legitimidade para aquilo, bla bla bla". Mas a realidade, a dura realidade que estes pequenos ditadores não aceitam, é que têm legitimidade sim senhor. Tanto têm e tiveram que formaram governo.

 

A questão das praxes é outra dialética incrível. Na altura do acidente do Meco, ouviram-se pessoas a insurgir contras as praxes que: 1 - nunca frequentaram uma universidade; 2 - frequentaram uma universidade mas nunca frequentaram as praxes. Só por si isto já é ridículo, mas eles também têm direito à sua opinião, por mais desajustada com a realidade que possa ser. Em relação à praxe, tendo eu sido praxado e praxante, só tenho a dizer que:

 

 

Vou ser sempre a favor da praxe, enquanto houverem estudantes universitários que queiram ser praxados e queiram praxar. No dia em que não houverem, podem acabar com a praxe então à vontade.

 

E esta ideia aplica-se a tudo. Ok, eu não gosto de touradas, no entanto, sei e respeito que hajam milhares de pessoas que gostem e vibrem com aquilo - para além das dimensões relativamente a impactos comerciais, culturais, históricos, etc. E como tal, defenderei sempre as touradas com base no mesmo princípio, se houverem pessoas que gostam de assistir a touradas, se houverem pessoas que queiram participar, porque não? A propósito deste tema, e para verem a maldade humana, recentemente faleceu com cancro um menino em Espanha que tinha dito numa entrevista, posteriormente, difundida nas redes sociais, que gostaria de ser cavaleiro de touradas (não sei se é o termo correto, wtv). Acreditam que houveram pessoas, só porque são contra touradas, que desejaram a morte ao rapaz? Pessoas que disseram que no caso dele não valia a pena fazerem-se doações e tratamentos. Absurdo mesmo. Tudo porque o rapaz disse que era a favor de touradas.

 

http://www.dn.pt/mundo/interior/vais-morrer-meninocom-cancro-e-vitima-de-ciberbullyingetodoa-espanhareage-5438571.html

 

Quanto à eutanásia. E vou-me só dedicar mais a este tema porque creio ser o que está mais na ordem do dia e mais próximo de ser uma realidade. Antes de mais, dizer que embora seja completamente a favor da legalização da eutanásia entendo que o Governo deveria referendar esta questão, dar ao país a possibilidade de se manifestar individualmente e não através daqueles que nos "representam". E, se porventura isso vier a acontecer, e o NÃO ganhar, então pronto, sou democrata ao ponto de aceitar que a maioria do país mostrou não estar preparado. E não há mal nenhum nisso. As mentalidades mudam-se aos poucos.

 

Exemplo: Despenalização do Aborto

 

Referendo 1998 - mesmo não tendo carácter vinculativo

1.jpg

Referendo 2007

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No caso do Aborto, bastaram 9 anos, mas que fossem precisos mais ou menos. O importante é saber respeitar!

 

E agora, venham lá esses comentários profiláticos a acusarem-me de tudo e mais alguma coisa.