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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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À Margem da Marginalidade - Allen Halloween // Híbrido

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Peguem em Dante e na sua caminhada pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. Agora peguem em Charles Bukowski e na sua poesia desregrada sobre o estilo de vida dos pobres e desfavoráveis, dos oprimidos e renegados. Agora juntem os dois num só e temos Allen Halloween. 

 

Poesia pura e dura "sem subterfúgios, com uma riqueza de cronista, talento de rapper com muita vida, sabedoria suficiente para nunca recorrer ao facilitismo do preto-e-branco". (in Público)

 

Não é fácil ver o que ele vê. Menos fácil é, absorver o que viu e apresentar-nos, sem filtros, a realidade do seu quotidiano, a vida de ghetto dele e dos seus. Muita marginalidade, muita criminalidade, muito preconceito e discriminação. Passou por todas elas, e, não fosse o talento inegável a pô-lo na boca de toda a comunidade nacional (e não só) apreciadora e seguidora de Rap e Hip Hop, provavelmente, seria só mais um anónimo passando por entre muitos outros anónimos na vida agreste deste país.

 

O seu mais recente trabalho, Híbrido, é o expoente máximo da cultura suburbana aliado a dois "pés na terra", ao mesmo tempo que narra, ao seu próprio ritmo, num encadeamento poético, carregado de analogias e metáforas, a vida, a verdadeira vida, de todos aqueles com que se cruza.

 

Já era mais do que merecido uma "caturrada" de prémios, inclusive literários. Mas Halloween não está para isso, prefere ficar quietinho no seu canto em Odivelas ao mesmo tempo que vai cantando (e apregoando) a realidade que ninguém quer ver:

 

Pagaram ao advogado mais caro do país
O juiz deu-lhes um saco de rebuçados envenenados a cada G
Eu comi 10 rebuçados e um dia saí
Velhos demais pa' voltar à street
Casado, sem dinheiro pá' minha velhice
Mas o tempo que me resta eu vou viver em peace
Tirar os meus putos da mão da police

(Bandido Velho)

 

E vem a cana, vem a prison, é a sina de quem anda na má vida
Assume a tua divida e um dia sais
Não culpes os teus amigos nem os teus pais
Só tu sabes onde vais

(Livre Arbítrio)

 

Há um trilho no vale que vai dar a 2 caminhos
Uma estrada larga um portão pequenino
Fui pela estrada até chegar a planície
Vi um velho com uma grande barba que me disse

Este é o caminho mal feitor
É cheio de armadilhas
Foi ele que levou a Alice para o país das maravilhas
País do pó e da pedra cristalina
Onde o sol nasce negro e neva todos os dias

(...)

Andei tanto para nada dread
Quais são as minhas chances mano a mano com o superman
Eu vou voltar para casa velho
Eu já sabia que esta estrada larga ia dar ao tejo
Já disse tudo não há mais nada pra dizer

(Zé Maluco)

 

De paragem em paragem

Sempre a mesma viagem

Tanta gente diferente

Na mesma carruagem

Uma velha a minha frente

Não pára de olhar

Tem calma avó, eu já não ando a roubar

Minha mãe dá-me a benção

De manhã, põe-me a mão na cabeça,

E pede a Deus para eu mudar,

Para eu encontrar

O meu lugar

(Marmita Boy)

 

Como o próprio Halloween diz: “Eu faço a minha parte. Não é pela política que se chega lá, o que percebi quando comecei a estudar a Bíblia. É pela pessoa, pelo coração das pessoas. Podes salvar o João, podes salvar o António. Agora, salvar uma sociedade? Salvar um país?"

 

"Allen Pires Sanhá, nome de guerra Allen Halloween, tem hoje 36 anos. Vive em Odivelas com a sua companheira e os três filhos. Mostra-nos o mundo, o nosso mundo, como mais ninguém é capaz de mostrar. Híbrido é uma obra-prima necessária. Obrigatória no presente. Uma dádiva para o futuro, quando quiserem ver o que fomos." (in Público)