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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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Convencido . Corrompido . Corrosivo .

A (minha) Volta a França

Eu não percebo nada de bicicletas. Quer dizer, sei andar, isso basta-me, mas do ponto de vista da mecânica, ciência, etc, não percebo nada de bicicletas. Muito menos percebo de ciclismo. E nem sou grande fã de ciclismo, não acompanho nenhum corredor nem nenhuma equipa em especial. E no que toca a Volta a Portugal, só me interessa naqueles dias em que o percurso passa por perto da minha casa, e aí o interesse é outro. O que me interessa é saber quais são as estradas que vão estar cortadas, para caso de eu ter de ir a algum lado saber por onde me orientar, ao invés de ficar duas horas numa fila de carros, onde toda a gente sai dos mesmos para se abeirar da estrada para ver as "bombas" (Hummers, Ferraris, etc) da W52 a virem na dianteira da corrida a fazer publicidade e, depois sim, os corredores, e durante um minuto, às vezes nem isso, justifica as duas horas de espera, aquele minuto de glória em que os ciclistas passam por nós, e nós, completamente afoitos e cheios de adrenalina incentivamos tudo e todos: "Siga, vamos", "Coragem, já falta pouco", "Tu consegues", "Vitor Gamito, 'tás velho para estas merdas volta para casa". É a beleza do ciclismo, pelo menos no nacional, 90% das pessoas que param para ver a "caravana" passar apoiam tudo e todos, não há cá fanatismos nem rivalidades, o povo português é por todos os que vão a passar, é lindo, até aqueles que vão de mota a filmar no fim são alvo de "incentivos": "Anda, tu consegues, é só mais um esforço". Ao que o gajo da RTP1 pensa: "opa, não me custa nada, basta ter gasóleo".

 

Mas confesso que sou fanático pela Volta a França. Não pelos ciclistas em si, mas, principalmente, pela dureza da prova. Há já oito edições que acompanho fielmente, etapa a etapa, o desenrolar do Tour de France. E adoro os batoteiros. É verdade. O corredor que me cativou, que me prendeu à televisão, a ver durante três ou quatro horas seguidas gajos em cima de bicicletas, enquanto os meus amigos iam para a praia, foi o Riccardo Riccó.

 

Estávamos na Volta a França 2008, e este italiano de vinte e cinco anos na altura, já tinha feito um Giro (Volta à Itália) notável e surpreendente, com um 2.º lugar na classificação individual, o 1.º lugar na classificação de juventude e ainda tinha ganho duas etapas. À sexta etapa, com chegada em montanha (Super-Besse), Riccardo Ricco deixou todos os adversários para trás arrancando numa fuga individual e ganhando tranquilamente. Só isto levantou suspeitas, uma vez que a subida em causa era uma das mais duras e Riccardo Ricco atacou sozinho deixando para trás a uma distância considerável qualquer hipotética concorrência. Três dias depois, na nona etapa, repete-se o cenário, nova chegada em montanha, nova vitória de Riccardo Ricco, e novamente com uma fuga espetacular deixando tudo e todos a comer o pó da sua bicicleta. Mas vocês não estão bem a ver a qualidade da fuga. Sem merdas, o gajo ia de mota. Não acreditam? Vejam, a partir do minuto 6.

 

Quatro dias depois, no dia 17 de Julho, após análises anti-doping, acusou CERA (3.º geração de EPO), e foi expulso da Volta à França.

 

Perdi o meu herói naquela prova, mas continuei um fã incondicional da Volta à França.

 

Explico-vos agora porquê:

 

Eu adoro desporto, adoro mesmo. Mas acho o ciclismo absurdo. É o desporto mais irreal e batoteiro de sempre. Por isso, é que, volta e meia, há sempre um landrup ou um samoco qualquer a morrer aos trinta e poucos anos de problemas cardíacos: Bruno Neves e Alessio Galletti (estes dois em prova), Marco Pantani (derivado ao consumo de cocaína também), Johannes Draaijer, Knud Jensen, Tom Simpson, entre tantos outros. E depois não é só pelos que morrem, mas por aqueles que vêem a sua carreira manchada pelo doping, e aqui, senão são todos, são 99% deles, sendo o restante 1%, provavelmente, aqueles que tiveram a sorte de nunca serem apanhados.

 

Como é que querem que alguém acredite que é humanamente possível alguém correr 200 kms hoje, mais 200 kms amanhã, mais 200 kms depois de amanhã e ainda mais 200 kms ao quarto dia, fazendo um dia de folga ao quinto dia. Comparem por exemplo, com os maratonistas. Aqueles etíopes e quenianos, que estão mais do que habituados a andarem a pé 50 ou 60 kms por dia para irem comprar pão, o jornal, ou simplesmente à procura de água, lá nos países deles, fazem uma maratona hoje, e só voltam a competir passado no mínimo um mês ou dois. E os ciclistas, quais super-heróis, pedalam milhares de quilómetros em pouco mais de um mês. A Volta a Itália 2015, disputou-se entre 9 e 31 de Maio, e a Volta a França 2015 decorre entre o dia 5 e o dia 27 de Julho, ora, os ciclistas que participaram em ambas as provas (e os que não participaram no Giro, de certeza que participaram noutras como o Rui Costa por exemplo), além das provas, tiveram de treinar, por exemplo, para fazer o reconhecimento das etapas na Volta à França.

Concluindo, andam desde Maio até ao final de Julho, a pedalarem uma média de 200 kms por dia, parando de longe a longe, um dia ou dois para descansar, e querem que a gente acredite que não tomam "bombas", que o ciclismo é "o desporto mais duro do mundo". Acham isso duro? Ide então correr, à pata, ou a penante se preferirem, os 217 quilómetros que o Carlos Sá percorreu na Ultramaratona de Badwater, em que conquistou o primeiro lugar. Sabem a diferença? É que depois o Carlos Sá esteve para aí duas semanas a descansar.

 

Enquanto escrevia este post, fui pesquisando, para não estar a falar de cabeça, ou a dizer disparates, e deparei-me com este artigo e fiquei chocado. A quantidade de corredores que já foram apanhados com dopping. Até o grande Eddy Merckx. Por cá, também o malogrado Joaquim Agostinho foi apanhado com doping. E para não citar casos como Lance Armstrong, Marco Pantani, Alberto Contador, Floyd Landis, Jan Ullrich, Ivan Basso.

 

Por isso, é que para mim, o Lance Armstrong vai ser sempre o melhor ciclista de todos. Porque na altura dele, eram todos batoteiros, eram todos bombados, e, mesmo assim, era ele que chegava sempre em primeiro lugar. O meu aplauso para ti Lance, que com doping ou não, ganhaste uma Volta à França enquanto combatias um cancro nos testículos e isso é um mérito que ninguém te pode tirar.

 

Quanto a mim, no presente, lá vou seguindo a Volta França 2015 na televisão, ao mesmo tempo que pedalo na minha bicicleta fixa que tenho cá por casa, só mesmo para entrar no espírito. E uma coisa é certa, posso não pedalar tanto tempo quanto eles, mas também não caio em plena estrada a 1 km da meta, como o camisola amarela (Tony Martin) fez hoje. E é o que me dá mais prazer ver, as quedas, ver aqueles "tones" todos a esbardalharem-se como se não houvesse amanhã por campos, e pelas valetas, e alguns atropelados por outros e não sei quê. 

 

E tou a torcer pelo Rui Costa, se bem que acho que não vai lá das "canetas", até porque, se para ganhar é preciso doping, então que se faça Homem e que leve umas injecções no rabo a ver se dá força, porque doping, meu caro, não é comer fumados de Mirandela, nem beber vinho alvarinho para dar "gazão".

 

Amanhã há mais.