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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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Convencido . Corrompido . Corrosivo .

A regra de ouro numa Biblioteca

Eu tenho um defeito enorme. Sou incapaz de estudar em casa. Sou mesmo. Até porque tenho uma necessidade enorme de me distrair, então sou daquelas pessoas que quando se encontra a estudar é capaz de deitar um lápis ao chão simplesmente com o propósito de se distrair. Daí que, para estudar, e forçando-me mesmo a estudar, opto sempre por vir para bibliotecas, porque além de ser um espaço que prezo muito e onde me encontro rodeado de livros, é uma forma que tenho de fugir a possíveis distrações, como seja um computador, uma consola ou até outra pessoa com quem perder tempo a conversar. Venho muitas vezes sozinho para uma biblioteca. É um facto. 

 

E, por norma, o estudo rende-me bastante quando por aqui ando - hoje é o caso, por exemplo. E o que mais aprecio num biblioteca é a sua regra de ouro, o Silêncio. É que tem mesmo de ser para eu poder atingir niveis de concentração elevados, que de outra forma só seriam possíveis se andasse a "morfar" modafinil.

 

Qual o problema?

São dois problemas até, mas que derivam do mesmo facto.

 

E o facto é que a biblioteca aqui da minha terrinha disponibiliza os jornais diários gratuitamente a quem os quiser ler. É este o grande problema: a disponibilização de informação diária.

 

Ora vejamos:

 

1.º problema - as pessoas de idade que vêm para a biblioteca ler os jornais todos os dias. Nada contra que o façam. À partida, ler um jornal, é uma atividade silenciosa o que coaduna perfeitamente com as regras estabelecidas numa sala de leitura de uma biblioteca. Mas aqui o problema, é que pelo menos nesta cidade, dá a entender que ler jornais é uma atividade coletiva. Então, é ver os "velhotes" a deslocarem-se em autênticos bandos, de quatro elementos para cima, apropriarem-se de todos os jornais de uma vez, trocando entre eles após a leitura, e depois dá-se o início ao debate. É incrível, mesmo a sério, a necessidade que eles têm de contar uns aos outros, em voz alta, aquilo que estão a ler. Isto deixa de ser uma sala de leitura para se transformar num fórum de debates ou numa cimeira do G8. Não têm qualquer pudor em exaltarem-se a discutir a cor partidária de um qualquer sujeito político, de fazer escrutínios e julgamentos de valor sobre qualquer indíviduo que veja o seu nome escarrapachado nos jornais. Neste preciso momento, estão há cerca de quinze minutos a ter um debate sobre a idoneidade da pessoa que fotografou a criança que morreu afogada. E o rídiculo é isto, nem se prendem com a parte importante da questão, que é o que fazer para solucionar este dilema humanitário que se tem vindo a presenciar diariamente. Não, aqui o problema para eles é o de apurar a responsabilidade da fotógrafa, saber se devia ou não tê-lo feito, se devia estar ali, se devia ter vergonha, se devia ganhar um prémio e por aí fora. No meio destes disparates todos, assiste-se a um debate mesmo sem querer fazê-lo, numa sala onde se procura estudar, como é o meu caso e de mais quatro ou cinco mesas ao meu lado esquerdo, completamente preenchidos de míudos e jovens, com os olhos já a revirar e a boca já a espumar de raiva.

 

2.º problema - a raiva concentrada quer na minha pessoa, quer em quem está a tentar estudar como eu, prende-se com o facto da total ignorância, incompetência e permissividade dos funcionários "públicos" que compõem o staff desta biblioteca. É de bradar aos céus. Ao meu lado esquerdo, mesmo no fundo de uma sala, encontram-se quatro rapazes a estudar não sei o quê, deduzo que seja algo a ver com matemática porque vejo as máquinas calculadoras em cima da mesa. Se me perguntarem se estão a fazer barulho? Sim estão, consigo perfeitamente ouvi-los a trocar ideias. A discutir as formas diferentes de resolução de um dado problema. Lá está, estão a estudar em grupo, perfeitamente normal, e mesmo violando a regra do silêncio, estão a fazê-lo a um volume bastante inferior, comparativamente aquela secção da velha guarda que se encontra do meu lado direito. Aliás a diferença dos décibeis quer de um lado quer do outro, é de tal forma significativa, que quando um dos veteranos fala, não consigo identificar de onde me encontro qual deles é, o barulho que os quatros jovens fazem ao estudar é completamente ofuscado. E o segundo problema reside aqui: os quatro jovens, já foram advertidos duas vezes para não fazerem barulho ao estudar, porque estão a incomodar as outras mesas, enquanto que ao meu lado esquerdo, os camaradas - de faixa etária - do Eça de Queiroz, continuam impunemente a sua delapidação informativa de cada caixinha de texto contida no jornal. É desconcertante assistir a isto, é mesmo. Isto é que é um problema real. Tanto falam em xenofobia, preconceito e discriminação, mas ninguém fala disto: do completo desrespeito da regra do silêncio numa biblioteca por parte das pessoas mais velhas. E o pior, é que alertados para este facto, ainda sou obrigado a ouvir da boca de uma funcionária algo como: "tem de compreender que não vamos estar a chamar a atenção pessoas de idade". Obrigado, por você ser totalmente incompetente no seu ofício!

 

Daqui a pouco dou dois berros, já me estou a passar!

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