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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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A Singular Biografia de Baltazar Gouveia – Parte I

 

            Baltazar Gouveia sempre fora um menino especial. Apercebera-se disso desde tenra idade. Contava ainda as primaveras de existência pelos dedos de uma mão, fosse ela a esquerda ou a direita, visto que Baltazar Gouveia tinha nascido “perfeitinho” e “sãozinho” nas palavras da avó Cremilda, e já possuía uma maturidade anormal para as crianças de cinco anos. Ao contrário dos outros meninos lá da terra, que com ele dividiam o tempo entre as traquinices no recreio e as contas de somar exigidas pela professora Esmeralda, Baltazar Gouveia possuía já um conhecimento intrínseco da sua posição na sociedade e no propósito da sua vinda a este mundo. Desde logo, Baltazar Gouveia sabia que era o único da sua “espécie”, uma vez que lhe foi dito pelo seu paizinho, que em vez de ter vindo numa cegonha como todos os outros meninos lá da terra, no caso dele, Baltazar Gouveia, tinha sido concebido pelo paizinho em conjunto com a mamã, e, dizia-lhe o seu paizinho, que por isso é que ele era tão especial e tão amado. E Baltazar Gouveia não coube em si de felicidade. Ele era especial. Ele era único. E tudo porque fora o paizinho que o fizera junto com a mamã. Ele estava tão feliz, e ficou mesmo muito orgulhoso do paizinho e da mamã, porque embora soubesse que a mamã fosse muito boa a fazer bolos, principalmente aquela torta de laranja que fazia sempre que a prima Matilde vinha visitá-los, e que o paizinho, sendo arquiteto de profissão, fosse o seu trabalho conceber casas (sendo certo que a casa na árvore que tinha feito no Verão passado ruíra nem duas semanas depois de estreada, no entanto, palavra do paizinho que a culpa tinha sido dos esquilos que ao terem a sua casa também naquela casa tenha originado um conflito de vizinhos), o facto de ter sido feito pelos dois só demonstrava o quanto era especial.

           

E essa especialidade ou singularidade do Baltazar Gouveia durou, nada mais nada menos, do que quinze horas e sete minutos e vinte e seis segundos, tempo que passou entre as dezanove horas e trinta minutos, que foi quando, à mesa da cozinha, no inicio do jantar, o paizinho contara a Baltazar Gouveia este segredo, e as dez horas e trinta e sete minutos e vinte e seis segundos da manhã do dia seguinte, contados até ao momento em que Baltazar Gouveia, após ter sido projetado no ar por um “banano” em cheio no nariz, aterrou, redondamente, de cara no chão. E isto explica-se da seguinte forma: o recreio tem início às dez horas e trinta minutos, vai daí que, Baltazar Gouveia “precisou” apenas de sete minutos e vinte e seis segundos para contar a todos os outros meninos lá da terra e que com ele andavam na escolinha, o porquê de ele ser especial e diferente de todos os outros e mal terminou de explicar o motivo de tudo isso, encontrou de frente, mesmo em direcção do seu nariz, em forma de um murro, o motivo de Américo Correia, o “mauzão” e o “capataz” do recreio que, por não ter gostado do motivo de Baltazar Gouveia, e principalmente, por não ter gostado de saber que ele não era especial mas sim o franzininho do “Baisterazar” Gouveia, alcunha dada por ele e seguida pelos outros meninos, achou-se com autoridade legítima para lhe mandar um “banano” (no léxico aprendido em casa pelo seu pai, em forma de sova constante e quotidiana) de forma a dar por encerrada a especialidade ou singularidade de Baltazar Gouveia.

           

E assim, foi de quinze horas e sete minutos e vinte e seis segundos o tempo que durou o primeiro momento de êxtase de Baltazar Gouveia. Momento que, analisado agora a frio após tantos anos, preferia que não tivesse ocorrido. Não porque não gostasse de ser especial, ou porque não conservasse essa ideia de que era diferente dos outros todos, mas sim pelo facto de que o “banano” que levou de Américo Correia tenha lhe partido o nariz, e ainda hoje, com as mudanças de tempo, sente dores de tal forma fortes, que lhe fazem vir as lágrimas aos olhos.

           

- “Bela maneira de ser especial, com o nariz entortado ao murro”. – queixa-se Baltazar Gouveia a olhar-se ao espelho.