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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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Era do Preconceito

por oBomIdiota, em 07.09.15

Eu já não tenho palavras, discernimento ou até coragem para classificar o repúdio generalizado a que assisto nas redes sociais. Como é que é possível haver tanta gente mesquinha. É por isso que eu sou a favor da censura. Só videos a circular meu deus, e todos eles mostram um cenário que não corresponde em nada à realidade. O que é que o miúdo sírio que morreu afogado, e a sua família, têm a ver com aqueles bárbaros do Estado Islâmico? Como é que podem fazer uma comparação dessas? Tanto ódio. Tanto preconceito. Como é que em 2015, a maioria das pessoas ainda não consegue ver para além da cor da pele, dos ideais políticos ou da religião?

 

Estou tão revoltado!

 

Dói-me. Mas dói-me mesmo. É um aperto no coração ver aquelas filas intermináveis de pessoas, com crianças pequenas pela mão, com bebés ao colo. Pessoas que em toda a sua vida só viram caos e desgraça. Pessoas que só pedem, no mínimo, que as deixem dormir à noite sem o receio de que uma bomba caia-lhes em cima e lhes ceife a vida e dos seus filhos. É pedir muito? Eu tenho a certeza que não!

 

E como é que é possível, fazerem tantos juízos de valor através de vídeos que só apresentam excertos e montagens? Já nem falo daqueles vídeos do Estado Islâmico, que as pessoas utilizam para criminalizar todos os muçulmanos. Isso é apenas estúpido. Mas, por exemplo, um vídeo que anda por aí a circular, passado na Hungria, que mostra refugiados a rejeitaram água e comida das forças de segurança húngara. E toda a gente se choca com as imagens, porque é incompreensível a recusa. Pelo menos assim parece. Mas eu pergunto? Será que a real mensagem é aquela que as imagens e só as imagens passam? É legítimo fazer um julgamento de valor, emitir uma opinião, só com base nessas imagens?

 

Dou um exemplo, imaginem que estão a ver um filme em norueguês, em swaili ou até em macedónio. Se o filme não tiver legendas, e vocês não perceberem o que os actores estão a dizer, vocês apenas guiam-se pelas imagens, no entanto, só as imagens podem conferir uma versão distorcida daquela realidade.

 

Passa-se o mesmo com aquele vídeo. Vejo amigos meus, colegas e conhecidos a partilharem o vídeo e a afirmarem-se a sua indignação com a atitude dos refugiados, mas nenhum deles, porque eu sei, fala húngaro, ou percebe húngaro, e como tal, não sabem o que é dito no diálogo do vídeo. Mas mesmo que assim não fosse, eu admito, que as imagens por si só, sejam incompreensíveis. Mas façamos um juízo de consciência, e pensemos por dois minutos. Acham mesmo, que refugiados, sujeitos a condições muito abaixo do limiar da dignidade humana, recusariam com leviandade de livre e espontânea vontade qualquer ajuda que lhes fosse concedida? Acham que é uma decisão que aquelas pessoas, às quais já quase nem esperança lhes resta, tomaram de ânimo leve? De certeza, quero eu acreditar, que tinham mil e um motivos, no seu entender claro, não quer dizer que eu entenda, para fazer o que fizeram. Acho estúpido, no caso das crianças, pois as necessidades delas são uma causa superior, e não têm o discernimento nem a responsabilidade para optarem pelas suas convicções.

 

E desde quando que recusar ajuda faz das pessoas monstros ou terroristas? Imaginem este exemplo, se vissem um nazi a dar uma garrafa de água a um judeu, e este recusasse a ajuda, estaríamos aqui todos a condenar o judeu? Porque é um monstro porque não quis aceitar a garrafa de água, mesmo, provavelmente, tendo sede? Claro que não. Porque por vezes, o gesto de aceitação de ajuda, num caso extremo, é o cortar do apêndice de orgulho que nos resta. 

 

Mas Pedro, esse exemplo é de um caso extremo, não tem nada a ver com o que se passa. E eu pergunto: Será que não tem? Eu fui-me informar, e isso implica ler muita coisa, e não resumir-se a vídeos e a notícias sensacionalistas, e fiquei chocado com a posição da Hungria em relação aos refugiados e imigrantes. Já nem falo do muro que estão a construir para bloquear a fronteira. Muro de Berlim lembram-se? A  história pelos vistos repete-se. Mas ficar a saber que governantes da Hungria, um estado considerado democrático, "aconselharam" os refugiados a ficarem na Turquia porque não são bem vistos no seu país e no resto da Europa, é de uma barbárie impensável nos tempos que correm. Mas piora. A Hungria e a Eslováquia além de dificultar a entrada dos refugiados, dificulta e retarda constantemente o trânsito destes para outros países da Europa (Alemanha e Áustria principalmente), e procedeu a mecanismo que só tem exemplo na Alemanha Nazi. Fazer a distinção entre os refugiados cristãos e muçulmanos, recusando-se a receber, no caso da Eslováquia, estes últimos. E eu pergunto-me, está a ajuda a uma criança refugiada dependente de saber se ela é cristã ou muçulmana? Já descemos tão baixo?

 

É por isso que eu sou totalmente, frontalmente e abertamente contra as religiões. Somos toldados no nosso discernimento por questões que nada têm a ver a com a nossa condição humana. Um muçulmano também tem dois braços, tem duas pernas, tem coração, sentimentos. E choram e sangram como nós. Como é que somos capazes de olhar para eles, crianças, mulheres e homens, como se fossem "bichos"?

 

Espero e desejo, ardentemente, que todos os refugiados, encontrem a paz de espírito que lhes faz falta, e que encontrem um "cantinho", onde, mesmo que os olhem de canto, não paire a ameaça constante da morte.

 

Acho que não era pedir muito.

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