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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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M.J. inspira (-me) #2

por oBomIdiota, em 28.11.15

Mãos à obra!

 

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Dia 14, do mês 14 do ano 50 d.BC*

 

21.32h

 

Esta é a minha última entrada no diário.

 

O gerador está a dar as últimas, e não sei por quanto mais tempo vamos conseguir manter a casa isolada. Há já 10 dias que não ouvimos barulhos. Provavelmente, só restamos nós. Da janela a que ainda conseguimos aceder, não se consegue ver nada tal é a toxicidade da nuvem que se abateu sobre nós. A pressão é imensa, e mesmo sendo a janela de vidro duplo, não sei até que ponto poderá aguentar.

 

O tempo urge!

 

Eles dizem que é inútil mas eu não penso assim. Tenho que deixar este registo para a posterioridade. Para o que há-de vir depois de nós. Serão vocês os nossos "herdeiros".

 

De todas as maravilhas que o Homem-Deus neste mundo - que agora finda - criou, é aquele que se denomina bidé a maior maravilha de entre todas as maravilhas que o Homem-Deus maravilhado maravilhou criou - não devia ter bebido aquela garrafa de JD antes de escrever isto, mas adiante. Foi no bidé que o Homem-Deus incorporou todo o mistério e mística da sua essência. É certo que durante séculos imensos foram aqueles que tentaram denegrir o bidé. Desde os cientologistas, ao muçulmanos, aos americanos e até os espanhóis - pelo menos aqueles espanhóis que eram donos de um resort em Málaga onde eu passei férias uma vez. Mas nós, portugueses, com o apoio entusiasta dos franceses, nossos camaradas de batalha pela sacralidade do bidé - diga-se de passagem, com uma visão muito romantesca e apaneleirada sobre esta magnânime construção -, conseguimos manter e transportar a essencialidade, garantindo assim a sobrevivência do bidé, até ao fim dos nossos dias.

 

(.... despacha-te! A TV já está a falhar e vais perder o combate entre o Frieza e o Songuku em Super Sayan. E traz as duas últimas pizzas do congelador)

 

Eles estão a chamar por mim. Tenho de me apressar. Vou-vos contar a história de como nasceu o bidé. É muito importante que as origens não se percam nas areias do tempo, porque tudo, tudo mesmo, tem um início.

 

Foi numa era longínqua, num ano do qual não há registo e cuja lembrança pertence aos arautos das quase-histórias, quase-mitos, quase-lendas. Eles eram um casal, feitos à semelhança de nós, mas eram muito mais do que nós. Eram Homens-Deus. Ele e ela. Ele chamava-se Vítor, divino de nascença, filho de seus pais, também Homens-Deus. Ela chamava-se Débora, mas tinha nascido Rute José, bastarda de nascença, filha de uma mãe, Svetlana, ginasta búlgara de eleição no país dela, mas que cedo emigrou para Cinfães onde continuou a ganhar a vida graças à sua flexibilidade e beleza mas já longe dos tartans do ginásio, e "afilhada" de um padre, D. José Sopas, Homem-Deus cuja responsabilidade era garantir a sanidade espiritual de todos os Homens-Deus, mas que sempre gostara muito de Svetlana - assim como ela gostava muito dele e dos outros Homens-Deus, só não conseguia era gostar de dois à mesma hora, excepção feita a uns gémeos Homens-Deus, mas isso agora não importa.

 

Vítor era padeiro e Débora era profissional liberal, chamemos-lhe assim - ou também podemos chamar-lhe jornalista, visto que ela tinha uma "coluna", pequenina contudo, nos classificados no jornal da cidade -, ambos na cidade Olimpo dos Homens-Deus, cidade essa que dava pelo nome de Cinfães. 

 

O amor, proibido, entre eles foi imediato.

 

Vítor amava a forma como a luz pública daquele poste mesmo em frente à porta das traseiras da sua padaria realçava os contornos curvilíneos da cintura delgada de Débora, ainda que disfarçada pelo casaco de vison tigresa artificial - made in Bangladesh, e com um custo de 7,50€ comprados no fim da noite de uma Black Friday nas traseiras de um depósito da Primark a dois "monhés" que andavam por lá a passear um animal estranho, chamavam-lhe pé-de-cabra, coitadinha, devia ser uma cabrita deficiente -, e da forma como as botas de cabedal acima dos joelhos brilhavam, ao mesmo tempo que deixavam desnudadas grande parte das coxas até finalmente a visibilidade ser eliminada por uma mini-saia minúscula - "Ah, tantas promessas se escondem ali" - arfava Vítor quando passava por ela as 4h da manhã a caminho de mais um dia de batente.

 

Débora amava os cacetes do Vítor - não importa desenvolver mais esta parte.

 

Pressentindo, ambos, que o amor que nutriam um pelo outro nunca iria ser bem aceite na cidade Olimpo dos Homens-Deus, Cinfães, decidiram, Vítor e Débora, fugir e recomeçarem as suas vidas, agora dedicadas à felicidade e bem-estar um do outro, num sítio distante daquele onde agora tinham sido votados ao ostracismo.

 

E assim foi que acabaram por recomeçar as suas vidas em Valadares, freguesia de Vila Nova de Gaia - e que não era assim geograficamente tão distante de Cinfães, mas que a pé ainda eram umas horas valentes. No entanto, nem tudo foi fácil. As probabilidades de sobrevivência voltaram-se contra eles. Valadares já estava servido de padeiro - passava um de carrinha pelas 6 da manhã, mas que trabalha em Mafamude -, e não havia muita luz pública por aquela zona, por isso Débora também se via aflita para trabalhar. E, foi quando a angústia começou a tomar conta deles - pela mesma altura que o enxoval que tinham começou a desentegrar-se nas mãos furiosas da Débora -, que chegaram à conclusão de que tinham de criar algo novo, só deles, e que fosse útil a todo o mundo para se sentirem realizados e felizes outra vez. E após um longo período de concepção - à volta de 16 minutos e 37 segundos - Vítor chegou à ideia do bidé. É certo que aquela diarreia quase espontânea e a falta de papel higiénico ajudaram Vítor a pensar, com urgência, numa solução fresca para um problema daqueles, mas isso são peaners pormenores.

 

bidé porquê? Perguntam vocês. Esta é fácil. Trata-se da junção da primeira sílaba do nome de ambos. E sim, Bi e não Vi, porque não se esqueçam que eles agora moravam na zona do Porto, logo é normal que quando chamassem pelo Vítor ou falassem com ele, fosse mais ou menos assim: "Ò Sô Bitor, a família bai boa?". Por isso ficou Bi de Vítor e Dé de Débora. E nasceu a obra-prima que nos traz até este momento, o bidé.

 

O resto da história está documentado. Morreram felizes, Vítor e Débora, nos braços um do outro, não deixaram prole, uma vez que eram ambos estéreis, o que até foi bom para eles porque permitiu poupar-lhes bastante dinheiro em métodos contraceptivos. Amaram a sua criação, o bidé, como se de um filho se tratasse, e foram praticamente esquecidos após as suas mortes, tendo a sua história/lenda, passado de boca em boca, chegando até mim, e cujo legado vos deixo agora por escrito - por isso é bom que aprendam português também. Quanto ao bidé, enraizou-se no seio da sociedade de Valadares e, mais tarde, na sociedade portuguesa também. No entanto, desconheço se em Cinfães conseguiu prosperar. E, numa tentativa de recuperar parte da história, mas omitindo, tal eram os seus desejos expressos, os nomes de Vítor e Débora, foi criada em 1921 a VALADARES - Original Bathrooms (pelo menos é o que diz o site), que carreou para si a missão de proteger, desenvolver e perpetuar o bidé nas casas-de-banho dos portugueses - e restantes louças e móveis/instrumentos sanitários -, e de alguns estrangeiros, nomeadamente, duas herdades no Zimbabwé e um pré-fabricado na Amadora.

 

(.... O Songoku ganhou ao Frieza! E a Bulma para desenho animado até é bem jeitosa! Já comeste as pizzas tu não já? Vamos morrer, mas fica a saber que és um urso...)

 

Novidade do caralho. Nos últimos 5 dias estivemos sempre a ver o DragonBall Z, visto que era a única gravação que tínhamos ainda. Até as falas já sei de cor. Mas não interessa agora, o tempo está-se a esgotar, e falta-me descrever-vos o uso do bidé:

 

Tal como um lavatório, o bidé serve os propósitos da nossa higiene pessoal. O uso recomendado é: nos dias em que só vos apetecer lavar as partes intímas - é o dia em que perdem a vossa dignidade e chamo-vos, desde já, porcos, porque se é para lavar, lavam tudo seus animais - enchem o bidé de água morninha e instalam-se - vulgo, sentam-se - o mais comodamente possível e deixam-se estar alguns minutos a demolhar as vossas "âmendoas" - caros seres do sexo masculino. Também serve para lavar os pés e a zona onde-o-sol-não-brilha. Tratando-se de seres do sexo feminino, o uso é semelhante trocando os frutos secos por bivalves - não vou ter de explicar a piada pois não?

 

Se porventura, vocês, próximos habitantes que hão de vir, não forem terráqueos como nós, então façam o que quiserem. Até podem cozinhar lá se vos apetecer. Quero lá saber, estou morto e a cagar-me para vocês todos.

 

Terminou o meu registo, e o meu tempo. O fim está aqui. Puta que pariu os sportinguistas, já sabia que iam acabar com o mundo assim que libertassem o mofo dos cachecóis.

 

Adeus.

 

 

 

NOTA DA REDACÇÃO:

Nesta data, os anos só têm 14 dias e 14 meses em homenagem aos 14 anos que o Sporting, actualmente, se encontra sem ser campeão, e esta carta foi escrita num futuro distópico passado no ano 50 depois de Bruno de Carvalho.

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