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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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Memórias de Frank Z

por oBomIdiota, em 12.07.15

Franklin não gosta nada das manhãs de terça-feira, não que tenha alguma coisa contra o terceiro dia da semana, mas, devido à sua rotina quotidiana de aborrecimento ser alterada sempre nesse dia, acaba por ficar sempre com um mau humor matinal, dando a sensação, coitado, de que acordou com os pés de fora, mas não é o caso. Todas as terças-feiras às nove horas e quinze minutos da manhã, sem exceção e com uma pontualidade inglesa, Fatinha entra pela porta da cozinha. Fatinha é, dentro do género, aquilo a que podemos chamar de mulher a dias, se bem que no caso dela é mais a horas do que propriamente dias. Dirige-se imediatamente à chaleira elétrica para fazer café, e é neste momento, por culpa própria, que Franklin começa a não gostar das manhãs de terça-feira. Franklin é um velho disciplinado no que toca aos seus hábitos e rotinas. Com a idade que tem pode dar-se ao luxo de acordar às horas que quer, ficar na cama o tempo que lhe apetecer e até puxar do seu cigarro matinal ainda antes de abrir os olhos, tudo isto menos às terças-feiras de manhã. Como disse, Franklin é um velho disciplinado e como tal, mantém por hábito acordar sempre às dez e meia da manhã, e faz-lo naturalmente, sem nunca ter utilizado mais do que aquilo a que ele chama de "despertador fisiológico", dito de outra forma, acorda sempre a essa hora porque foi o limite temporal máximo que consagrou à sua capacidade de resistência ao tabaco e à arte de fumar um cigarro em pijama, da qual Franklin, adoptando a hierarquia do karaté, é, não cinturão, mas sim pijama negro dessa arte marcial capaz de imobilizar o mais capaz dos capazes com uma nuvem de fumo empestada com cheiro a alcatrão e nicotina logo pela manhã. Resumindo, mais uma vez, Franklin acorda todas as manhãs, menos a terça-feira, com uma vontade irresistível de fumar um cigarro. E a culpa deste ritual não se cumprir nesse tão negro dia deve-se à teimosia de Franklin em manter em funcionamento aquela chaleira elétrica, mesmo tendo Fatinha se oferecido para lhe oferecer uma nova máquina de café, daquelas que passam na televisão a fazer publicidade, sabe lá Fatinha, se à máquina ou as cápsulas de café que lá são inseridas. Mas é normal, está mais atenta à fisionomia daquele "bonzão" do Clooney que estando na mesma faixa etária de Fatinha, na casa dos cinquenta e muitos, continua a lhe provocar uns arrepios na espinha e uns calores que já não sentia há uns bons dez anos, que foi quando entrou na menopausa e sentiu esses calores, porque Fatinha, sendo natural da Guarda, nunca foi dada a litorais, e como também nunca gostou do mar nem sabia nadar, e mantendo-se eternamente solteira, acabou por se mentalizar que homens, definitivamente, não eram a sua praia. Voltando à questão do café, a verdade é que a antiga chaleira elétrica de Franklin - ganha por ele numa das barraquinhas nas festas das cruzes, naquele típico e bilateral negócio, para quem vende e oferece, e divertimento, para quem compra e recebe, no já longínquo maio de setenta e oito -, fazia uma chiadeira infernal, no simples processo de ferver a água, sim, porque Franklin era avesso às novas tecnologias em matéria de café, e sendo homem era avesso também ao galã Clooney, aquele que preenchia o imaginário de Fatinha todas as noites, preferindo o método artesanal da confecção do café, onde a água é fervida separadamente, e o café ainda em grão é moído e só depois se completa o processo juntando-se o café agora em pó à água fervida. O curioso de tudo, é que Franklin gostava do café assim, mas não gostava de ser ele a fazê-lo. E, assim,  às nove horas e quinze minutos da manhã de todas as terças-feiras, Franklin acordava sobressaltado com a chiadeira da chaleira elétrica a ferver água e não com o seu despertador "fisiológico", mesmo sabendo de antemão ao deitar-se na noite anterior aquilo que o espera ao acordar, ou melhor, aquilo que o espera para o acordar. E Franklin não gosta. Não gosta das manhãs de terça, de acordar às nove horas e quinze minutos, não gosta da chiadeira da chaleira elétrica, não gosta de não fumar o seu cigarro matinal ainda antes de abrir os olhos e não gosta de ter a Fatinha a insistir com ele para substituir a velha chaleira por uma moderna máquina de café, igual aquelas da publicidade que passam na televisão e mostra o "bonzão" Clooney da Fatinha. Mas, como já disse anteriormente, Franklin é um velho teimoso e disciplinado que gosta das suas rotinas e hábitos, daí que goste das suas terças-feiras de manhã, simplesmente, para poder, no próprio dia, não gostar das manhãs de terça-feira, não gostar de acordar às nove horas e quinze minutos, não gostar da chiadeira da sua chaleira elétrica, não gostar de não poder fumar o seu cigarro matinal ainda antes de abrir os olhos e não gostar da Fatinha a insistir consigo para substituir a velha chaleira por uma moderna máquina de café, igual aquelas da publicidade que passam na televisão e mostra o galã do Clooney. Assim, e sem nunca reconhecer isso para si próprio, Franklin, secretamente, gosta das suas terças-feiras de manhã, porque a sua rotina quotidiana de aborrecimento é sempre alterada nesse dia, mesmo constituindo essas alterações uma outra rotina. Mas Franklin dá-se por contente e agradecido. Agradecido ao falecido Sr. Fausto, que foi quem, já conhecendo Franklin desde rapaz pequeno, vendeu-lhe as rifas que o premiaram com a moderna e topo de gama, na altura, chaleira elétrica nas festas das cruzes no longínquo maio de setenta e oito. Saudoso maio de setenta e oito.

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