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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

(Não) Somos todos João Almiro

A propósito da reportagem especial da TVI, transmitida ontem à noite, só queria dizer que, durante cerca de 30 minutos, também eu voei. "Até voares", era o nome dado à peça, mas, muito mais do que um título, muito mais do que uma mensagem, era uma chamada de atenção, um apontar o dedo até se quisermos. E o dedo foi-me apontado a mim. Senti isso a ver a reportagem, as palavras de João Almiro a ecoarem-me na cabeça: "E tu? O que fizeste hoje de que te possas orgulhar?". 

 

A realidade daquelas imagens, transpôs para o interior das nossas casas a realidade, nua e crua, daquilo que nós, pessoas, somos na sociedade:

- ou aflitos, pobres diabos;

- ou alguém com poderes de ajudar os aflitos, os pobres diabos;

 

Como é que alguém com tão pouco consegue fazer tanto? É a pergunta que se impõe. Não preciso de estar aqui a escalotear a Segurança Social, já bastou ontem o dedo ser colocado na ferida pelo próprio. Faz falta mais coração, mais vontade, mais dedicação e mais amor. 

Ainda me custa apreender a dimensão daquela vida, daquele "doutor" de 89 anos que abdicou de tudo, que abdicou de si (do seu bem estar), em prol dos outros. E que passou a retirar da felicidade que proporciona motivos para continuar a querer fazer mais e melhor. 

 

"Também eu matava essas pessoas, no lugar dele" - ouvimos-lo a dizer a certa altura. Não, não é da boca para fora. E não, também não é com ódio que é dito. É sim com sinceridade, com pragmatismo até, mas acima de tudo, é dito com sabedoria. Sabedoria de quem é sabedor do quanto é dura a puta da vida. 

 

"Não há conta num banco que pague o amor que me dão" . "Quando eu morrer, levo o caixão cheio de amor". Leva sim senhor. De amor e gratidão. E agora não só dos pobres diabos que acolhe. Mas daqueles que viram, que passaram a conhecer. Não há finais felizes se não fizermos por isso, a prova está aqui. Na abnegação, no espírito de sacrifício, no altruismo. Todos sabemos que a vida é madrasta. Todos sabemos que a realidade sabe ser severa. E o mal que fazemos, pagamos neste mundo não em nenhum outro.

 

Somos todos pobres diabos que cá andamos. 

Mais pobres ainda se podíamos fazer algo para ajudar um irmão e não o fizemos.

 

- "[Tenho] ânsia de morrer. Estou cansado, preciso de descansar. Mas não os queria abandonar."

 

Só pensa assim quem tem a clarividência, a humildade, e o saber intrinseco de que, quando a hora chegar, partem deste mundo como vieram, mas, com a certeza e a satisfação de que deixaram um mundo melhor do que aquele que encontraram quando cá chegaram.

 

#DevíamosSerTodosJoãoAlmiro