Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

Os Interessantes - Isabel

Isabel tinha tudo para ser astronauta. Já vivia constantemente na lua, por isso não teria problemas de adaptação ao espaço. No entanto, essa não era a sua vontade.

 

Isabel era uma rapariga normal, não como as outras, mas, no meio de tantas outras, outras tantas no meio de outras, e no meio destas, não tantas outras, mas apenas ela. Era uma rapariga normal sem, no entanto, deixar de ser diferente. Quanto mais igual às outras ficava, mais destoava no meio delas. Tudo bem que meses de solário e calções curtinhos de bombazine fazem com que te destaques em qualquer lado, mas não era esse o caso de Isabel.

 

Isabel tinha sonhos. Sonhava todas as noites com alguma coisa. Nunca lhe disseram foi que só sonhar a dormir não conta nem chega para nada. Mas Isabel sonhava, e, entre as noites e os sonhos sonhados, germinavam as ideias do que iria ser Isabel no dia seguinte ao acordar. Todos os amanhãs eram um novo amanhã, um amanhã diferente. E o amanhã de ontem, não seria igual ao amanhã de hoje, nem este seria igual ao amanhã de amanhã. Isabel não sabia disto, não desta forma, Isabel limitava-se a sonhar.

 

Isabel era apressada. E distraída. E aluada. E despassarada. Tudo a mesma coisa, tudo Isabel. Às vezes chegava a ser rídicula até. O seu mundo, presentemente, e à parte de todo o resto do mundo, era constituído por princípes, fadas, castelos, dragões e Direito da Família. Os primeiros quatro por teimosia dela, o último por teimosia da professora dela. Mas Isabel não desistia. Embora vontade tivesse muitas vezes a sua teimosia não a deixava ir em frente e voltar para trás. Para trás nos sonhos que ela sonhava. O segredo estava em não se preocupar. Às preocupações seriam só para as coisas más mesmo sérias, aqueles problemas irremediáveis com que se deparava no seu dia a dia: "Onde raio é que pus o meu piercing falso do nariz? Não posso sair de casa sem ele. Não quero." (entretanto já a chorar) "Porquê? Porque é que tenho não consigo marcação para o solário hoje? Oh mãeeeeeeeeeeeeeee, ajuda-me!"

 

Mas a mãe de Isabel não ajudava. Era díficil também visto que Isabel era adoptada. Mas nisso tinha orgulho, fizeram um bom trabalho com ela, e ela tinha feito um bom trabalho consigo própria em relação a isso, daí ninguém tirando os seus íntimos sequer imaginarem a adoptividade da sua pessoa. Ontem mesmo, ao dar uma esmola a um peditório, foi agraciada com um elogio pela senhora que fazia a colecta de fundos (basicamente "estava" a comprar umas palavras de apreço, mesmo tendo o feito de livre e espontânea vontade e de coração cheio): "Continue assim menina, cheia de valores". Ela sorriu para a senhora.

 

E depois riu-se para mim: "Sou adoptada tipo?"

 

E eu ria-me para ela: "Valores tu? Só se for na carteira."

 

Mas Isabel tinha valores sim senhor. Agora a questão de saber se estes valores eram próprios ou comuns é outra discussão, mas confesso que há divergência na doutrina quanto à titularidade dos mesmos. Eu, cá para mim, acho que ela está enganada, mas não lhe quis dizer se não ela não se ia calar. Quando ela teima num tema, e não o ultrapassa, lá está, podemos falar para ela à vontade, que ela fica em modo astronauta. 

 

Mas aquilo que a tornava mesmo especial era o facto de Isabel pensar no que mais ninguém pensava. E assim era a nossa relação: Ela falava, falava e falava. Descorria à volta das suas teorias durante horas. E eu ouvia e ria-me. Às vezes com ela. Outras vezes, e sinceramente a maioria delas, ria-me dela.

 

Lá vinha Isabel pela calçada acima:

 

"Acho que as gajas ao serem violadas, deviam simular que estão a gostar, porque para os violadores é mais uma questão de superioridade. Eu, se tivesse a ser violada, fazia tudo para que ele visse que estava a gostar."

 

Ok, Isabel.