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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

Os Interessantes - João

 

João era preconceituoso. Demasiado preconceituoso. Nas redes sociais insultava tudo e todos. O ódio era geral e transversal. João odiava pretos, gays, mulheres, gordos, anões, chineses, brasileiros (as brasileiras não), romenos, ciganos, judeus, muçulmanos, carteiros, jeovás, anoréticos, espanhóis e desempregados. Se pudesse, João, num acesso de raiva investido com poderes divinos eliminava todos com um simples estalar de dedos. 

 

- "Mania de serem paneleiros. Puta que pariu estes lambe-piças. Deviam ter vergonha! E ainda querem adoptar crianças! Seus pedófilos! Para quê? Para que hajam mais paneleiros ainda?" - vociferava João nos seus comentários sempre que encontrava algum fórum a discutir o assunto. Era vê-lo com as veias pungentes a sobressairem pelo pescoço, quando no acesso de fúria carregava sem dó nem piedade no teclado.

 

- "Era expulsá-los todos daqui, que voltem para o país deles e deixem sossegados quem quer trabalhar cá e é deste país. Rua com eles todos. Essa gente é só doenças que pegam às pessoas. E não fazem nada, só roubam e, mesmo assim ainda têm direito a subsídios pagos por mim, essa escória, esses montes de merda!" - comentava João ferozmente numa notícia online de um jornal, em que o artigo em questão dizia que cada vez mais romenos, chineses e brasileiros imigravam para Portugal à procura de trabalho. Isto para João era uma questão de patriotismo e nacionalismo. Era o que mais faltava virem para Portugal roubar o emprego aos portugueses, e obrigando estes a terem que emigrar porque os estrangeiros roubavam todos os empregos que haviam.

 

- "Ahahahaha, onde é que já se viu mulheres a ganharem mais do que os homens? Elas nem deviam trabalhar. Deviam era ficar a arrumar a casa e a cuidar dos filhos, que esse é que é o papel delas. Isso é que era, eu casar com ela e ela agora ter de me sustentar não? Nem pensar, o Homem é para trabalhar e a Mulher para ficar em casa. E que nem refile muito, que quem paga as contas sou eu. Só tem de ter o comer pronto na mesa quando eu chego e mais nada. Boa vida tem ela, que pode ficar sempre em casa." - defendia João num aceso debate online acerca dos direitos da Mulher e da sua emancipação em relação ao homem nas sociedades modernas do séc. XXI.

 

- "Esses gajos são uns chatos do caralho. Só sabem bater à porta das pessoas e foder-nos a cabeça para nos falarem de um Santo António qualquer. Puta que pariu esses trengos, sempre com a treta da religião, que Deus é isto e Deus é aquilo. Que vão mas é trabalhar que têm bom cortiço para isso. Se não querem, então era fazer-lhes como fizeram aqueles "alemões" com aqueles rabichões de barba, e metê-los todos num comboio e siga para uma fornalha qualquer. A ver se eles aí não paravam de tentar impingir-nos merdas lá com o Deus deles" - troçava João na página de uma comunidade anti-religiosa online, que promovia o ódio entre religiões, defendendo o extermínio e o genocídio de minorias religiosas.

 

- "Puta que pariu os pretos. Aposto que foi um deles. Cambada de macacos. Estavam bem era em África que é lá a casa deles em cima das árvores. Um gajo é bom para eles e é assim que nos pagam. Fomos lá ensiná-los a comer, andar, vestir e falar, para eles agora virem para as nossas casas e terras e para quê? Para fazerem assaltos? Para violarem as nossas filhas? Era correr com eles todos. Onde é que já se viu um português preto? Português que é português é branco, não é preto! Esses estavam todos era bem num jardim zoológico ao lado dos gorilas e dos chimpanzés." - revoltou-se João, assim que viu alguém no Facebook, dizer que tinha sido assaltado na Damaia.

 

Como já disse anteriormente, João é preconceituoso. E racista. Muito racista.

Mas, entretanto, João desligou o pc e foi jantar.

 

Calhou nesse dia, jogar a selecção, e João, patriota que é cantou o hino com as lágrimas a escorrerem pelos olhos. E era vê-lo a festejar o segundo golo marcado pelo Varela a passe do William Carvalho. Já não ficava assim emocionado desde a última vez que o Deco, um dos seus heróis, jogara pela última vez com a camisola da selecção.


A seguir, João lavou a louça, não sem antes ter agradecido à esposa por ter feito a comida preferida dele. A mulher agradeceu-lhe, e, lembrando-se, tratou de o encorajar para o grande dia que João teria pela frente amanhã: "Vais ver que a entrevista de emprego te vai correr bem amor". João, emocionado, pousou a esponja, fechou a torneira e veio abraçar a mulher: "Obrigado por não teres desistido de mim, e por nos teres sustentado estes meses todos. Não sei o que seria sem ti."

Beijaram-se e abraçaram-se. 

 

Era Abril, e estava uma noite quente, ao invés de irem logo para cama, João propôs à mulher que fossem dar uma volta pelo centro. Ela aquiesceu. Ao saírem de casa, João reparou que o casal chinês, proprietários da loja dos trezentos por baixo de sua casa ainda tinham a loja aberta. João estranhou, eram 22h30m da noite. Pediu à mulher para aguardar no carro e foi lá. A loja tinha acabado de ser assaltada, o dono, o sr Wei, encontrava-se maltratado e sangrava de um ferimento, a sua esposa, a sra. Wei, chorava desalmadamente, enquanto, num português completamente macarrónico e quase imperceptivel pedia a João para fazer qualquer coisa. 

João foi rápido. Ligou para o 112 e prestou todas as informações necessárias solicitando a vinda do INEM o mais rápido possível, em seguida, tratou de limpar todos os vidros partidos que se encontravam no chão e que faziam parte daquilo que tinha sido até há uns 20 minutos da montra da loja.

O INEM entretanto chegou, e João certificando-se que já não era necessário no local, voltou para junto da mulher. Perguntou-lhe se ainda queria dar uma volta ou preferia subir e voltar para casa. A mulher disse-lhe que entretanto, o Gonçalo tinha-os convidado a irem tomar café ao centro, que ele, o Afonso e a Maria já lá estavam. João, prontamente animou-se, já não os via a algum tempo, e desde que ficara desempregado afastara-se um pouco deles com vergonha. As saudades da malta já eram muitas realmente. Entrou no carro e arrancaram para o centro.


Após duas voltas de carro, lá encontraram estacionamento, um velhinho sem-abrigo, que João já conhecia de o ver por ali há muito tempo fez-lhe sinal que um carro ia sair, e assim, João sem perder tempo, garantiu o seu lugarzinho mesmo à porta do café onde os seus amigos se encontravam. Saiu, deu um euro ao velhinho e agradeceu-lhe pelo lugar, quando na realidade o velho é que estava agradecido a João porque com o euro, já tinha dinheiro para o seu maço de tabaco. João sorriu, sabia exactamente para o que era o dinheiro e mesmo assim ainda brincou: "Vá Mendes, agora não os fumes todos de uma vez". O velho soprou um múrmurio e foi à sua vida.

 

João e a esposa entraram no café, localizaram Afonso e Maria numa mesa lá no fundo do estabelecimento e foram ter com eles. "O Gonçalo foi ao WC", disse Maria a João quando este perguntou por ele. João abraçou efusivamente Afonso e Maria, e depois cumprimentou Gonçalo com um aperto de mão e um abraço, sem antes ter brincado com ele: "Lavaste as mãos ao menos?". Riram-se todos. Ao fim de meia hora de conversa, animada e regada a minis, os ânimos despertaram e elevaram-se. "Voltamos sempre ao mesmo", disse João perdido de riso. Afonso e Gonçalo debatiam ferozmente, argumentando e contra argumentando os prós e contras da sua religião. Gonçalo era jeová confesso e praticante, Afonso era judeu de sangue e de fé. "Vocês são ambas boas pessoas, independentemente das vossas crenças. E gosto de vocês quer sejam judeus, ou jeovás. Numa coisa têm em comum. São ambos feios", atirou João na direcção deles os dois debaixo do olhar atento da sua esposa e de Maria. Afonso e Gonçalo estacaram, entre olharam-se, olharam para João, e desmancharam-se a rir no mesmo momento. Todos riram.

 

Era quase 01h da manhã quando João e a esposa chegaram a casa. A noite arrefecera bastante, e agora, João já acreditava no homenzinho da meteorologia quando ao jantar, durante o intervalo do jogo, dissera que as temperaturas iam baixar drasticamente, na casa dos 10.º/12.º graus de temperatura. No momento, em que se preparavam para abrir a porta da entrada, foram abordados por um sujeito alto, robusto, loiro, e que se fazia acompanhar por um menino que não teria mais do que dez, onze anos. Falava um português de Leste. Instintivamente, João colocou-se à frente da mulher, em posição defensiva, e perguntou ao senhor que se apresentava diante de si o que pretendia. O senhor apresentou-se: chamava-se Yuri, e aquele era o filho dele Ivan. Tinham chegado a Portugal há 3 semanas em busca de um futuro melhor. Mas esse futuro melhor teria de esperar, porque de momento o que eles buscavam mesmo eram agasalhos para poder enfrentar a noite. João, perguntou-lhe se já tinham jantado. Yuri respondeu que sim, que, felizmente, fome ainda não passavam, que tinham encontrado uma instituição que todos os dias lhes garantia refeições quentes, mas que a nível de vestuário pouco podiam fazer. João pediu então que aguardassem 10 minutos enquanto ia lá cima ver se lhe arranjava alguma coisa. Deixou-os ficar dentro da porta da entrada enquanto subia a casa com a esposa. Regressou 8 minutos depois. Trazia um sobretudo velho, mas bem estimado, que já não utilizava, assim como dois casacos de malha e umas quantas camisolas. Trazia também uma pasta de chocolate e dois pacotes de bolachas que deu ao pequeno Ivan. Yuri agradeceu lhe, já com os olhos embargados. João sorriu, e disse-lhe que de longe a longe que fosse passando por ali, e que se ele o pudesse ajudar assim faria. Mais um agradecimento. E despediram-se.

 

João voltou a subir. Entrando em casa, a mulher já se tinha deitado e esperava pacientemente por ele na cama. João despiu a roupa que trazia, vestindo um pijama aos ursinhos que a esposa lhe tinha oferecido pelos anos. Antes de se deitar, João dirigiu-se ao seu computador portátil. Ligou-o. Verificou os grupos, páginas, comunidades, fóruns e faces. Tinha dezenas de notificações, centenas de gostos, e montes de pessoas a concordar com tudo o que João disse.


João voltou a desligar o computador.

Deitou-se junto de sua mulher, abraçou-a, fizeram amor, e adormeceram.

 

Eu disse-vos que João era preconceituoso. E racista. Não vos menti. Mas João só era isso atrás de um computador. No mundo virtual. E João disse isso tudo. Disse mas não sentiu.

 

Vai uma grande diferença entre aquilo que se diz e aquilo que realmente se pensa sobre o assunto. João é só mais um. Teve foi a sorte de ter sido abençoado com um elevado nível de Humor. João é feliz assim.

 

João foi feliz assim...


Até ao dia seguinte. Que foi quando morreu, à saída do seu novo emprego, que o conquistou na hora após a entrevista de emprego. João foi mortalmente baleado por um preto anão, que tinha sido adoptado por um casal de Chino-brasileiros muçulmanos.

 

 

Moral da história:

 

- Se algum dia algum estranho te abordar na rua e te chamar pelo nome, faz sempre de conta, à primeira, que não és tu.