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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

Para cada Casamento um Divórcio se faz favor

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Aproveitando a velha máxima de, "Para cada panela, há um testo", devia haver outra do género:

 

"Para cada Casamento um Divórcio se faz favor".

 

Juro que se o meu mestrado fosse em Direito da Família ao invés de Direito Tributário seria o meu tema de dissertação. Com este título e tudo.

 

Okay, estou a formular esta teoria neste preciso momento com base em argumentos nada jurídicos, mas também não preciso deles, visto que só está em causa a praticabilidade do, latu sensu, Casamento. Mas o timing de tudo é mesmo engraçado. Parece que o "destino", "Deus", "A Santa Providência", "Karma", etc, está-se a encarregar de criar um completo enredo à volta de merdas sem interesse nenhum. Digo isto, porque hoje comprei e comecei a ler o mais recente livro de um dos meus autores preferidos, o James Rollins. E esse livro tem por título, nada mais nada menos, de "Sangue Inocente". Ora, voltando às minhas cogitações sobre o matrimónio, e em termos metafóricos, quando um casamento chega ao fim o que mais há é "Sangue Inocente". Sejam os filhos, os pais, os avós, os amigos, o cão, o gato, o canário ou a tartaruga, há sempre alguém "inocente" que sai mal no meio disto tudo.

 

Juntamente com isto, aplico a minha visão "contratualista" sobre os Casamentos. Esqueçam o amor. Mandem foder o amor, literalmente. Nos dias que correm, todos aqueles que ainda casam, casam sempre por amor. Pode não ser à pessoa, mas sim aos bens da pessoa, mas de uma maneira ou outra casam sempre por amor. Aqui a diferença para o passado é que o nosso amor não é eterno, e deviamos tirar essa valoração da definição de casamento. E porquê? Porque o casamento pressupõe uma vida em conjunto, ou dito de melhor forma, a "plena comunhão da vida". NÃO FAZ SENTIDO!!! Devíamos substituir esta expressão por uma semelhante a: "Comunhão de vida com prazo de validade". Toda a gente casa por amor, ou quase toda a gente. Mas, ao contrário das gerações dos nossos pais e mais ainda dos nossos avós, o "nosso" amor já não é para sempre. E digo mais, nem tem de ser. Se tudo nesta vida, incluindo a própria vida, tem um início e um fim, porque é que o sentimento de amor por uma pessoa que não nos é nada (não partilha connosco um laço de filiação que faça com que haja uma ligação inquebrável entre duas pessoas) tem forçosamente de ser ad eternum para ser verdadeiro?

 

"Ai só namoraste 6 meses? É porque não gostavas mesmo dela" - dito por quem namora há um ano e pouco

"Ai só namoraste 1 ano? É porque não gostavas mesmo dela" - dito por quem namora há 3 anos

"Ai só namoraste 3 anos? É porque não gostavas mesmo dela" - dito por quem namora há 6 anos.

 

E por aí em diante.

 

Ou seja, sempre o mesmo argumento da treta. O amor numa perspetiva de algo infindável ou infinito. Não é verdade. O amor tem sempre um fim, e não deixa de ser verdadeiro por isso. 

Agora, o que falta é coragem. Coragem para nós próprios, de termos a honestidade, a sinceridade, a ombridade de reconhecermos que já não amamos aquela pessoa, seja isso ao fim de 2 dias, 1 mês ou 34 anos. Acredito piamente que existe para o amor um prazo de validade, agora óbvio que não tem de estar especificamente explicitado.

 

Admiro imenso aquelas pessoas que se casam 5 e 6 vezes. E atenção, não estou a falar daqueles ricos que têm niveis de vida absurdamente elevados, e que só casam para aparecer na capa da Vanity Fair. Não, estou a falar daquelas pessoas que amam mesmo de verdade. Aquelas que amam:

De peito aberto.

De amo-te na ponta da língua.

De olhar embargado pela felicidade.

De mãos entrelaçados em passeios no parque.

De elogiarem-te como se tu fosses realmente a/o mulher/homem mais linda/o do mundo.

De serem parte de ti, sendo tu complemento dele/dela.

De rirem das tuas parvoíces.

De se levantarem quando entras.

De te abraçarem quando te encontram.

De andarem com a tua fotografia na carteira e mostrarem-na a toda a gente. 

De não terem pudores.

De se envergonharem e te envergonharem.

 

Isto tudo, umas quatro ou cinco vezes na vida. Não será possível? Tenho a certeza que sim.

Um casamento é um contrato, e um contrato acaba quando uma das duas partes deixa de ter vontade de estar vinculado ao contrato. Logo, o casamento acaba quando uma das pessoas deixa de ter vontade (deixa de amar) de estar presa a um compromisso com outra pessoa.

 

E aqui, a minha visão fatalista. No presente, em 99% dos casos, isso acontece. E ainda bem que acontece! Somos nós a quebrar barreiras e a acabar com mitos e tabus que vigoravam na nossa sociedade. Não somos menos por deixar de gostar de uma pessoa. Não somos "pecadores" por isso, nem muito menos vamos para o "Inferno" ou para uma hipotética realidade metafísica de punição e castigo. 

 

Os casamentos devem acabar. Repito, os casamentos devem acabar. Seja à morte dos cônjuges, ou à morte do amor entre os cônjuges. E quer numa situação, quer noutra, fica sempre a esperança de refazer a vida junto de outra pessoa. Nós só somos monogâmicos no sentido de compromisso, não no campo instintivo e animal. Isso são apenas reflexos da nossa condição como "animal". Agora, o livre arbítrio deu-nos a capacidade (bela merda) de nos sujeitar mos a compromissos perpétuos em troca de uma hipotética/aparente/ilustrativa realidade. E a verdade é que isso servia. E serviu. Durante anos, décadas e séculos. Mas caraças, o 25 de Abril foi à 40 anos. Somos uma sociedade emancipada, civilizada, consciencte, informada e preparada para lidarmos com as roturas do passado.

 

Autoritariamente falando, devia, na minha óptica, ser imposto um divórcio obrigatório a cada casamento, ou pelo menos, no primeiro casamento. Poupavam-se as crianças por exemplo, visto que passava a ser regra, e assim aquele panorama negro  de culpabilização que todas as crianças assumem (quer uma pessoa queira quer não) pelo facto de o papá e da mamã não estarem mais juntos, deixava de pairar, assim como a diferenciação (e por vezes discriminação) entre filhos de pais solteiros e pais casados.

 

Atenção que não sou contra o casamento. Pelo contrário, sou totalmente a favor. Acho que toda a gente tem o direito de ser e viver miserável sozinhos ou acompanhados.

Aquilo que sou contra é a ideia que nos vendem de que os casamentos são para sempre. Não são. E como tal, nada de campanhas para compras de casa e planos de poupança a 40 anos, e menos propaganda à mobília para o quarto de casal por parte do IKEA. Já bastou estas centenas de anos em que o Casamento, na sua génese pura, andou a ser subvertido pelas regras do Vaticano.

 

Um casamento não tem de ser para sempre.

Um casamento só tem de durar enquanto ambas as partes quiserem. O amor é um elemento de valoração subjetiva e discricionária. Cada um de nós dá-lhe a dimensão que bem entender. Agora, ancorarmos ao amor, a necessidade de compromisso, o sentimento de posse de outra pessoa, a mim parece-me uma noção exacerbada e errada do que deveria ser a realidade. Mas, visto que fui moldado por estas regras, e mesmo combatendo-as com todas as minhas forças, sei que há alturas em que imaginava como seria "facilmente" bom optar por uma relação eterna. No entanto, não vejo assim as coisas. Não as penso assim. E, mais importante, não sou assim.

 

Devemos amar, sim. E na plenitude do nosso ser. Mas tendo sempre por limites, a "quantidade" de amor que estamos dispostos a dar aquela pessoa. Quando essa "quantidade" se esgotar. Siga para bingo e procurar outra. Se a primeira deixou um vazio, há que o preencher com a segunda, e se a segunda não for boa a tapar buracos siga para a terceira, e assim sucessivamente. Mas não com o objetivo de acertarmos Naquela, na Especial, no Amor das nossas vidas. Não, nada disso. Devemos, acho eu, andar assim sucessivamente sempre à procura da que mais nos completa naquele momento (presente) até chegarmos ao fim das nossas vidas e podermos dizer que sempre, ou quase sempre, amamos e fomos amados. Tenha sido por 1 só ou por 758 pessoas.

Sempre vi as coisas desta maneira, e guardo os ensinamentos da minha mãe sobre este assunto, mesmo ela não sendo propriamente instruída nesta matéria:

 

"Quando casei com o teu pai, casei por amor, mas, sempre preparada para assinar os papéis do divórcio no dia seguinte".

 

São casados e felizes, acredito eu, há já 25 anos. E que continuem assim, é sinal de que continua a ser melhor viverem miseravelmente juntos do que sozinhos. Para mim são um exemplo de superação das adversidades. Mas, nem por isso mudo o que penso. Aliás, às discussões que têm, às vezes penso se não seria melhor se divorciarem. Não. Se calhar não. Seria pior. Já me considero fatalista e, se realmente assim fosse, passaria muito rapidamente de fatalista para bombista-suicida no que toca a casamentos. 

 

Concluindo:

Eu gostava de casar um dia. E sei que se o fizer vou ter duas certezas:

- Que vou gostar mesmo da pessoa

- E que não vou gostar dela para sempre

 

Parece contraditório? Pois parece, e eu quero é que vocês se fodam.