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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

Regresso a Casa

Sob pena de ser spoiler, aviso já que este post contém uma dose extrema de saudosismo. 

Atenciosamente, o Autor.

 

 

 

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Regressar a casa. À nossa casa.

 

Eu, com todos os meus defeitos e qualidades, e alguns (ou algumas), sendo defeitos ou qualidades conforme a situação, sou, com toda a certeza, um sentimentalista do mais elevado grau que existe. Tive fora uma semana. Apenas uma semana. Sendo do Norte do país, fui, como de costume, visitar o Sul. Ver como andava o vento por lá, cumprimentar as palmeiras, a areia quente e a água translúcida. Abraçar o pôr-do-sol, virado para Norte, mandando beijos aos montes para lá do Douro. Fui matar saudades das bolas de berlim. Fui pôr a conversa em dia com os vendedores ambulantes que deambulam de um lado para o outro, incessantemente, na mesma praia. Fui dormir com a companhia do sol. Fui visitar avenidas. Fui sorrir a turistas. Fui ao Barlavento Algarvio compreender as falésias e as suas escarpas. Fui dançar na areia vermelha ao som dos sunsets que nos aquecem a alma. Fui retemperar as minhas forças no dorso das vagas. Fui pasmar na orla das praias. Fui de férias e fui feliz. 


Acabou. Passaram os sete dias. Passou a semana. 

 

Regressar a casa. À nossa casa. 

 

Cheguei. Cheguei com saudades do meu quarto, das paredes brancas de minha casa. Cheguei com ânsia de ver, da janela do meu quarto, o sol esconder-se sob as nuvens enquanto medram as sombras dos eucaliptos lá ao longe onde o monte começa. Cheguei com vontade de cheirar o perfume das flores silvestres que inundam a passagem pelos campos, enquanto pela beira da estrada vemos os rostos, agrestes e queimados, dos vizinhos, mais idosos, na sua imperturbável caminhada no fim de mais um dia de labor. Cheguei com saudades das pessoas. Daquela gente da minha terra, qual fado cantado pela Mariza. 

 

Começou. Passaram aqueles sete dias. Passou aquela semana. Passou a viagem de regresso a casa. À nossa casa.

 

É sempre bom voltar. É a melhor sensação de todas. O regressar a casa.

 

Numa viagem de ida e volta, por mais preenchida e completa que a ida seja, por mais feliz que a ida te faça, é só na volta, quando voltas ao local de partida, que às voltas que deste, vês que a maior volta das voltas, é a volta que te traz para casa. Tive fora uma semana. Sou saudosista eu sei. Não foi preciso chorar ou beijar o chão, eram só saudades. Eram só saudades do que é nosso. Do que é uma parte de nós. Mas, e se não fosse uma semana? E se fossem meses? Anos? E se não fosse por férias? Mas por necessidade e trabalho? Aí chorava sim. Não só com as saudades, mas com a alegria de ver e viver uma parte que é "arrancada" de nós. Quem me conhece sabe que tenho uma certa "espécie" a emigrantes, à sua maneira de ser. Mas, se há coisa que me comove, é ver alguém chorar por abraçar pessoas desencontradas há já bastantes anos. É ver alguém ficar com a voz embargada ao reencontrar um sobreiro, um riacho, um caminho que lhe trazem a mil à hora flashbacks de uma infância vivida numa outra longínqua vida. Nunca menosprezem a vossa casa. O vosso lar. Sejam quatros paredes ou não. Seja um ribeiro passando calmamente, ao mesmo tempo que reluz o brilho do sol. Seja o chiar de pássaros ou o esvoaçar de borboletas ou os sussuros do vento por entre a aridez dos campos. Seja o que for a vossa casa, é, sempre, a vossa casa. E não há nada como voltar a casa, e ver que nada mudou, e que tudo mudou, porque nós mudamos.

 

 

 

Não é este o caso. Mas e se fosse?

Boa viagem a todos os que vêm para casa. Para vossa casa.

 

 

Mas não abusem no "avec".