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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

Revisitando o passado. Vivendo o presente. Desejando o futuro.

Manuel Alegre, num dos seus inúmeros e magníficos poemas declamava assim:
 
"Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.

Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.

Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.

Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.

Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus."
 
 
Este é o nosso legado. 40 anos após a liberdade, observando agora de longe, chegamos à conclusão que aquele 25 de Abril, não foi mais do que um acontecimento natural. Não querendo com isto mitigar ou desvalorizar o valor que o momento tem, nada disso. Mas a realidade, é que os grandes feitos democráticos quando analisados muito posteriormente, representam nada mais do que o evoluir das sociedades e do que pensam as sociedades. É claro que o momento de ruptura é sempre um marco, principalmente quando essa ruptura se dá da forma como se deu o 25 de Abril, através de um golpe de estado. Pacífico, mas um golpe de estado. 
 
Ora, estes marcos vão se sucedendo no tempo. Citando desde o 25 de Abril, podemos citar exemplos como: a queda do muro de Berlim, o fim da guerra na antiga Jugoslávia, a independência do Kosovo, ou o fim da luta armada do IRA ou da ETA. 
 
Óbvio, que estes momentos históricos não são todos exclusivamente de caracter político/bélico. Fez-se história em tantos lados e sobre tantas coisas: a legalização do aborto assim como o casamento homossexual em Portugal, o referendo pró-independência de regiões como a Catalunha ou o País Basco, a luta pela educação de uma rapariga (Malala) num país como o Paquistão, etc.
 
E podia dar aqui mais mil e um exemplos.
 
No entanto, o ontem, fica marcado por mais um passo enorme na valorização da dignidade humana e na concepção de que somos todos iguais não importa a raça, o sexo, a religão, a idade ou a orientação sexual. O Supremo Tribunal dos EUA aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todos os seus 50 estados. Recuperando as palavras de Neil Armstrong quando pisou a superfície lunar pela primeira vez:
 
- "That's one small step for a man, one giant leap for mankind"
 
 
Então porquê citar Manuel Alegre e um poema onde se encontra patenteada a dor de ter de deixar a pátria para lutar no exílio e na clandestinidade por um futuro melhor?
 
Porque, toda a nossa vida é marcada por três medidas: o que vivemos no passado, o que recebemos no presente e o que esperamos do futuro.
 
E se Portugal, hoje, se pode orgulhar da despenalização do aborto ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo, como exemplos do valor constitucionalmente consagrado e protegido do ser humano enquanto pessoa e cidadão, foi muito à custa do sangue, suor e lágrimas de quem muito lutou, muito sacrificou e de muito abdicou no passado, como foi o caso, entre muitos, de Manuel Alegre, que, apenas sonhando com um (seu) futuro melhor, garantiu-me, a mim, um presente melhor. Daí que só me possa ser exigido, nada mais nada menos, do que fazer sempre mais e melhor, para daqui a 40 ou 50 anos, estar alguém deste lado a escrever as mesmas palavras que eu.