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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

M.J. inspira (-me) #2

Mãos à obra!

 

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Dia 14, do mês 14 do ano 50 d.BC*

 

21.32h

 

Esta é a minha última entrada no diário.

 

O gerador está a dar as últimas, e não sei por quanto mais tempo vamos conseguir manter a casa isolada. Há já 10 dias que não ouvimos barulhos. Provavelmente, só restamos nós. Da janela a que ainda conseguimos aceder, não se consegue ver nada tal é a toxicidade da nuvem que se abateu sobre nós. A pressão é imensa, e mesmo sendo a janela de vidro duplo, não sei até que ponto poderá aguentar.

 

O tempo urge!

 

Eles dizem que é inútil mas eu não penso assim. Tenho que deixar este registo para a posterioridade. Para o que há-de vir depois de nós. Serão vocês os nossos "herdeiros".

 

De todas as maravilhas que o Homem-Deus neste mundo - que agora finda - criou, é aquele que se denomina bidé a maior maravilha de entre todas as maravilhas que o Homem-Deus maravilhado maravilhou criou - não devia ter bebido aquela garrafa de JD antes de escrever isto, mas adiante. Foi no bidé que o Homem-Deus incorporou todo o mistério e mística da sua essência. É certo que durante séculos imensos foram aqueles que tentaram denegrir o bidé. Desde os cientologistas, ao muçulmanos, aos americanos e até os espanhóis - pelo menos aqueles espanhóis que eram donos de um resort em Málaga onde eu passei férias uma vez. Mas nós, portugueses, com o apoio entusiasta dos franceses, nossos camaradas de batalha pela sacralidade do bidé - diga-se de passagem, com uma visão muito romantesca e apaneleirada sobre esta magnânime construção -, conseguimos manter e transportar a essencialidade, garantindo assim a sobrevivência do bidé, até ao fim dos nossos dias.

 

(.... despacha-te! A TV já está a falhar e vais perder o combate entre o Frieza e o Songuku em Super Sayan. E traz as duas últimas pizzas do congelador)

 

Eles estão a chamar por mim. Tenho de me apressar. Vou-vos contar a história de como nasceu o bidé. É muito importante que as origens não se percam nas areias do tempo, porque tudo, tudo mesmo, tem um início.

 

Foi numa era longínqua, num ano do qual não há registo e cuja lembrança pertence aos arautos das quase-histórias, quase-mitos, quase-lendas. Eles eram um casal, feitos à semelhança de nós, mas eram muito mais do que nós. Eram Homens-Deus. Ele e ela. Ele chamava-se Vítor, divino de nascença, filho de seus pais, também Homens-Deus. Ela chamava-se Débora, mas tinha nascido Rute José, bastarda de nascença, filha de uma mãe, Svetlana, ginasta búlgara de eleição no país dela, mas que cedo emigrou para Cinfães onde continuou a ganhar a vida graças à sua flexibilidade e beleza mas já longe dos tartans do ginásio, e "afilhada" de um padre, D. José Sopas, Homem-Deus cuja responsabilidade era garantir a sanidade espiritual de todos os Homens-Deus, mas que sempre gostara muito de Svetlana - assim como ela gostava muito dele e dos outros Homens-Deus, só não conseguia era gostar de dois à mesma hora, excepção feita a uns gémeos Homens-Deus, mas isso agora não importa.

 

Vítor era padeiro e Débora era profissional liberal, chamemos-lhe assim - ou também podemos chamar-lhe jornalista, visto que ela tinha uma "coluna", pequenina contudo, nos classificados no jornal da cidade -, ambos na cidade Olimpo dos Homens-Deus, cidade essa que dava pelo nome de Cinfães. 

 

O amor, proibido, entre eles foi imediato.

 

Vítor amava a forma como a luz pública daquele poste mesmo em frente à porta das traseiras da sua padaria realçava os contornos curvilíneos da cintura delgada de Débora, ainda que disfarçada pelo casaco de vison tigresa artificial - made in Bangladesh, e com um custo de 7,50€ comprados no fim da noite de uma Black Friday nas traseiras de um depósito da Primark a dois "monhés" que andavam por lá a passear um animal estranho, chamavam-lhe pé-de-cabra, coitadinha, devia ser uma cabrita deficiente -, e da forma como as botas de cabedal acima dos joelhos brilhavam, ao mesmo tempo que deixavam desnudadas grande parte das coxas até finalmente a visibilidade ser eliminada por uma mini-saia minúscula - "Ah, tantas promessas se escondem ali" - arfava Vítor quando passava por ela as 4h da manhã a caminho de mais um dia de batente.

 

Débora amava os cacetes do Vítor - não importa desenvolver mais esta parte.

 

Pressentindo, ambos, que o amor que nutriam um pelo outro nunca iria ser bem aceite na cidade Olimpo dos Homens-Deus, Cinfães, decidiram, Vítor e Débora, fugir e recomeçarem as suas vidas, agora dedicadas à felicidade e bem-estar um do outro, num sítio distante daquele onde agora tinham sido votados ao ostracismo.

 

E assim foi que acabaram por recomeçar as suas vidas em Valadares, freguesia de Vila Nova de Gaia - e que não era assim geograficamente tão distante de Cinfães, mas que a pé ainda eram umas horas valentes. No entanto, nem tudo foi fácil. As probabilidades de sobrevivência voltaram-se contra eles. Valadares já estava servido de padeiro - passava um de carrinha pelas 6 da manhã, mas que trabalha em Mafamude -, e não havia muita luz pública por aquela zona, por isso Débora também se via aflita para trabalhar. E, foi quando a angústia começou a tomar conta deles - pela mesma altura que o enxoval que tinham começou a desentegrar-se nas mãos furiosas da Débora -, que chegaram à conclusão de que tinham de criar algo novo, só deles, e que fosse útil a todo o mundo para se sentirem realizados e felizes outra vez. E após um longo período de concepção - à volta de 16 minutos e 37 segundos - Vítor chegou à ideia do bidé. É certo que aquela diarreia quase espontânea e a falta de papel higiénico ajudaram Vítor a pensar, com urgência, numa solução fresca para um problema daqueles, mas isso são peaners pormenores.

 

bidé porquê? Perguntam vocês. Esta é fácil. Trata-se da junção da primeira sílaba do nome de ambos. E sim, Bi e não Vi, porque não se esqueçam que eles agora moravam na zona do Porto, logo é normal que quando chamassem pelo Vítor ou falassem com ele, fosse mais ou menos assim: "Ò Sô Bitor, a família bai boa?". Por isso ficou Bi de Vítor e Dé de Débora. E nasceu a obra-prima que nos traz até este momento, o bidé.

 

O resto da história está documentado. Morreram felizes, Vítor e Débora, nos braços um do outro, não deixaram prole, uma vez que eram ambos estéreis, o que até foi bom para eles porque permitiu poupar-lhes bastante dinheiro em métodos contraceptivos. Amaram a sua criação, o bidé, como se de um filho se tratasse, e foram praticamente esquecidos após as suas mortes, tendo a sua história/lenda, passado de boca em boca, chegando até mim, e cujo legado vos deixo agora por escrito - por isso é bom que aprendam português também. Quanto ao bidé, enraizou-se no seio da sociedade de Valadares e, mais tarde, na sociedade portuguesa também. No entanto, desconheço se em Cinfães conseguiu prosperar. E, numa tentativa de recuperar parte da história, mas omitindo, tal eram os seus desejos expressos, os nomes de Vítor e Débora, foi criada em 1921 a VALADARES - Original Bathrooms (pelo menos é o que diz o site), que carreou para si a missão de proteger, desenvolver e perpetuar o bidé nas casas-de-banho dos portugueses - e restantes louças e móveis/instrumentos sanitários -, e de alguns estrangeiros, nomeadamente, duas herdades no Zimbabwé e um pré-fabricado na Amadora.

 

(.... O Songoku ganhou ao Frieza! E a Bulma para desenho animado até é bem jeitosa! Já comeste as pizzas tu não já? Vamos morrer, mas fica a saber que és um urso...)

 

Novidade do caralho. Nos últimos 5 dias estivemos sempre a ver o DragonBall Z, visto que era a única gravação que tínhamos ainda. Até as falas já sei de cor. Mas não interessa agora, o tempo está-se a esgotar, e falta-me descrever-vos o uso do bidé:

 

Tal como um lavatório, o bidé serve os propósitos da nossa higiene pessoal. O uso recomendado é: nos dias em que só vos apetecer lavar as partes intímas - é o dia em que perdem a vossa dignidade e chamo-vos, desde já, porcos, porque se é para lavar, lavam tudo seus animais - enchem o bidé de água morninha e instalam-se - vulgo, sentam-se - o mais comodamente possível e deixam-se estar alguns minutos a demolhar as vossas "âmendoas" - caros seres do sexo masculino. Também serve para lavar os pés e a zona onde-o-sol-não-brilha. Tratando-se de seres do sexo feminino, o uso é semelhante trocando os frutos secos por bivalves - não vou ter de explicar a piada pois não?

 

Se porventura, vocês, próximos habitantes que hão de vir, não forem terráqueos como nós, então façam o que quiserem. Até podem cozinhar lá se vos apetecer. Quero lá saber, estou morto e a cagar-me para vocês todos.

 

Terminou o meu registo, e o meu tempo. O fim está aqui. Puta que pariu os sportinguistas, já sabia que iam acabar com o mundo assim que libertassem o mofo dos cachecóis.

 

Adeus.

 

 

 

NOTA DA REDACÇÃO:

Nesta data, os anos só têm 14 dias e 14 meses em homenagem aos 14 anos que o Sporting, actualmente, se encontra sem ser campeão, e esta carta foi escrita num futuro distópico passado no ano 50 depois de Bruno de Carvalho.

Um Primeiro Post sobre a Independência de Plutão e não só

14 de Julho de 2015

 

Terça-feira,

 

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O mundo acorda em polvorosa com primeiras imagens inéditas, de alta resolução e a cores, de Plutão, o 9.º planeta do Sistema Solar (ou planeta-anão, se preferirem ser objetivos e adoptar a postura ditatorial da União Astronómica Internacional, mas aí já lá vamos), fotografadas e enviadas para nós através da sonda espacial New Horizons. O mundo todo, excepto Belmiro. Belmiro acordou sim em polvorosa, mas à custa do vizinho de cima. Este inergúmeno (nas palavras de Belmiro), lembrou-se de aspirar o quarto às sete da matina, ao mesmo tempo que cantava desalmadamente, desenfreadamente e, acima de tudo, desafinadamente I Want to Break Free, dos britânicos Queen. Belmiro nunca gostou do seu vizinho de cima, não que tivesse realmente algum motivo concreto para essa impressão. Na realidade, o vizinho de cima sempre se mostrou muito prestável e cordial a Belmiro, e, pensando bem agora no assunto, Belmiro entende que o vizinho de cima sempre se mostrou excessivamente prestável e cordial. Não que Belmiro fosse homofóbico, nada disso, Belmiro respeitava todos os Homens e as suas fobias, só não gostava era de paneleiros, maricas e larilas. E o seu sexto sentido (que digamos que é algo muito másculo, só que não), adquirido após a realização de uma formação de mais de mil horas a captar sinais dos adversários a jogar à Sueca, "dizia-lhe" que havia algo de errado com o vizinho de cima, no que toca a mulheres claro. Porque apesar de tudo, e era o menos mal nesta situação toda, bom gosto musical, lá isso, o vizinho de cima tinha. Belmiro também gostava muito da I Want to Break Free dos Queen, assim como a Maneater dos Hall & Oates, I Will Survive da Gloria Gaynor, a Believe da Cher e, finalmente, a fechar o top 5 das suas músicas prediletas, a Go West dos Pet Shop Boys. Sim, Belmiro também era homossexual, só que desconhecia essa sua condição. Vá, melhor dito, estava em perpétua negação.

 

O dia foi passando, normalmente, para Belmiro e para o resto do mundo também, excepto para os nerdzinhos da NASA que se encontravam todos em exuberante extâse em fila indiana para as casas de banho, onde, um a um, iam todos "bater píveas" de entusiasmo (uns), de alívio (outros), de nervosismo (uns outros) e de carência afetiva do sexo feminino (todos eles). No decorrer do seu dia, enfiado num cubículo a olhar para um computador, executando as tarefas, que consistiam o seu trabalho diário, de forma mecânica e automática, Belmiro foi como "forçado" a entrar no espírito de exaltação interplanetária pelas imagens obtidas de Plutão. Levantou-se uma centelha de curiosidade. Belmiro quis saber mais sobre o pequenino Plutão.

 

Após a leitura, na Wikipédia, dos primeiros três parágrafos sobre Plutão, a centelha de curiosidade desperta em Belmiro, transformou-se numa demanda, numa séria investigação por parte de Belmiro sobre o passado deste pequenino planeta. Plutão era agora, como uma espécie de protagonista de uma série televisiva, e Belmiro, como espectador fiel e comprometido que era não descurava qualquer pormenorzinho que lhe revelasse mais e mais sobre a "vida" do seu protagonista. Bem, na realidade não foi nada disto que se passou. O que se passou, foi que Belmiro leu na Wikipédia que Plutão era um planeta, e depois passou a ser um planeta-anão por imposição de terceiros sem ter sido sequer consultado, isto fez Belmiro lembrar-se do Tyrion Lannister de Games of Thrones, a sua série preferida, em que por acaso esta personagem ocupa um papel central na trama e, à semelhança de Plutão, também é anão, só que ao invés de planeta-anão, é só um anão.

 

Bastou dez minutos e a Wikipédia para crescer e inflamar dentro de si um ódio inestimável à União Astrónoma Internacional, por ter decidido, sem direito a referendo (que Belmiro achava ser necessário uma vez que para ele a gravidade da questão compara-se à situação na Grécia onde as pessoas morrem de falta de dinheiro porque não têm tempo para morrer de fome), a despromoção de Plutão, deixando este de ser considerado o 9.º planeta do Sistema Solar para passar a ser considerado um planeta-Tyrion Lannister, desculpem, um planeta-anão. Ainda o dia de trabalho estava a terminar para Belmiro e já este tinha assinado 17 petições públicas para devolverem Plutão ao seu "estado natural". Umas clamavam por justiça para Plutão, outras clamavam a independência de Plutão, havia ainda uma petição que era para que chegasse à Assembleia da República uma proposta de lei que descriminalizasse os casos em que um adulto sentia por um menor um "amor plutónico", tinha duas subscrições, a do autor, um pedófilo condenado a cumprir pena em Custóias, e de Belmiro que era frontalmente contra a pedofilia, mas que subscrevera porque achara que a palavra "plutónico" remetia para a temática de Plutão, quando na verdade, não passava apenas de um erro ortográfico (entre muitos) dado pelo tal pedófilo condenado, que coitado, só tinha a 4.º (antiga) classe. Belmiro subscreveu também uma petição para acabar com os colchões de penas de pato, mas esta apenas o fez, por partilhar da dor do autor da petição, uma vez que Belmiro sofria de uma "escoliose". Patologia a que Belmiro atribuíra a culpa, a um colchão de penas de pato, instalado na cama onde pernoitou por duas noites, quando passou um fim de semana na casa de uma sua tia-avó (que não lhe recorda o nome) em Vila Verde de Ficalho, no município de Serpa.

 

Quando já se fazia tarde, Belmiro ao chegar a sua casa, teve o choque da sua vida, naquele dia claro, ao descobrir que o seu vizinho de cima era, efetivamente, pandula, ou não tivesse sido Belmiro "forçado" a ter que partilhar o elevador com o seu dito vizinho e o seu suposto namorado, um cabo-verdiano de cerca de 1,90m de altura, com umas calças pretas, brilhantes, em cabedal que dava pelo nome de Erivelto. Belmiro transpirava. Assim que o elevador (ou ascensor), deu sinal de chegada ao seu piso, Belmiro atravessou-se, rudemente, pelo meio do homocasal, dando tempo a estes ainda de ouvirem Belmiro bater furiosamente com a sua porta. Teve Belmiro sorte em Erivelto não ter ouvido os impropérios que este lhe chamou, baixinho, após já estar dentro do seu "doce lar", se não Belmiro era capaz de levar um Ippon e ficar estatelado no chão, não fosse Erivelto, além de chupa-pilas (segundo as palavras de Belmiro ao padeiro no dia seguinte), cinturão negro em Judo.

 

Belmiro, jantou, ao contrário do usual, acompanhado. Não por uma companhia em forma de pessoa per si, mas sim a companhia dos gemidos que vinham do vizinho de cima. Resultado? Menos um prato de cozinha no enxoval masculino e solteiro de Belmiro, ao mesmo tempo que este furioso e resignado deitou-se sobre a sua cama de headphones nos ouvidos. E enquanto esperava, pacientemente, pelo sono que o transportasse para o dia seguinte, ao som de Dancing Queen dos ABBA, Belmiro mudou o fundo do ambiente de trabalho do seu computador.

 

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 Nada gay, portanto.

Memórias de Frank Z

Franklin não gosta nada das manhãs de terça-feira, não que tenha alguma coisa contra o terceiro dia da semana, mas, devido à sua rotina quotidiana de aborrecimento ser alterada sempre nesse dia, acaba por ficar sempre com um mau humor matinal, dando a sensação, coitado, de que acordou com os pés de fora, mas não é o caso. Todas as terças-feiras às nove horas e quinze minutos da manhã, sem exceção e com uma pontualidade inglesa, Fatinha entra pela porta da cozinha. Fatinha é, dentro do género, aquilo a que podemos chamar de mulher a dias, se bem que no caso dela é mais a horas do que propriamente dias. Dirige-se imediatamente à chaleira elétrica para fazer café, e é neste momento, por culpa própria, que Franklin começa a não gostar das manhãs de terça-feira. Franklin é um velho disciplinado no que toca aos seus hábitos e rotinas. Com a idade que tem pode dar-se ao luxo de acordar às horas que quer, ficar na cama o tempo que lhe apetecer e até puxar do seu cigarro matinal ainda antes de abrir os olhos, tudo isto menos às terças-feiras de manhã. Como disse, Franklin é um velho disciplinado e como tal, mantém por hábito acordar sempre às dez e meia da manhã, e faz-lo naturalmente, sem nunca ter utilizado mais do que aquilo a que ele chama de "despertador fisiológico", dito de outra forma, acorda sempre a essa hora porque foi o limite temporal máximo que consagrou à sua capacidade de resistência ao tabaco e à arte de fumar um cigarro em pijama, da qual Franklin, adoptando a hierarquia do karaté, é, não cinturão, mas sim pijama negro dessa arte marcial capaz de imobilizar o mais capaz dos capazes com uma nuvem de fumo empestada com cheiro a alcatrão e nicotina logo pela manhã. Resumindo, mais uma vez, Franklin acorda todas as manhãs, menos a terça-feira, com uma vontade irresistível de fumar um cigarro. E a culpa deste ritual não se cumprir nesse tão negro dia deve-se à teimosia de Franklin em manter em funcionamento aquela chaleira elétrica, mesmo tendo Fatinha se oferecido para lhe oferecer uma nova máquina de café, daquelas que passam na televisão a fazer publicidade, sabe lá Fatinha, se à máquina ou as cápsulas de café que lá são inseridas. Mas é normal, está mais atenta à fisionomia daquele "bonzão" do Clooney que estando na mesma faixa etária de Fatinha, na casa dos cinquenta e muitos, continua a lhe provocar uns arrepios na espinha e uns calores que já não sentia há uns bons dez anos, que foi quando entrou na menopausa e sentiu esses calores, porque Fatinha, sendo natural da Guarda, nunca foi dada a litorais, e como também nunca gostou do mar nem sabia nadar, e mantendo-se eternamente solteira, acabou por se mentalizar que homens, definitivamente, não eram a sua praia. Voltando à questão do café, a verdade é que a antiga chaleira elétrica de Franklin - ganha por ele numa das barraquinhas nas festas das cruzes, naquele típico e bilateral negócio, para quem vende e oferece, e divertimento, para quem compra e recebe, no já longínquo maio de setenta e oito -, fazia uma chiadeira infernal, no simples processo de ferver a água, sim, porque Franklin era avesso às novas tecnologias em matéria de café, e sendo homem era avesso também ao galã Clooney, aquele que preenchia o imaginário de Fatinha todas as noites, preferindo o método artesanal da confecção do café, onde a água é fervida separadamente, e o café ainda em grão é moído e só depois se completa o processo juntando-se o café agora em pó à água fervida. O curioso de tudo, é que Franklin gostava do café assim, mas não gostava de ser ele a fazê-lo. E, assim,  às nove horas e quinze minutos da manhã de todas as terças-feiras, Franklin acordava sobressaltado com a chiadeira da chaleira elétrica a ferver água e não com o seu despertador "fisiológico", mesmo sabendo de antemão ao deitar-se na noite anterior aquilo que o espera ao acordar, ou melhor, aquilo que o espera para o acordar. E Franklin não gosta. Não gosta das manhãs de terça, de acordar às nove horas e quinze minutos, não gosta da chiadeira da chaleira elétrica, não gosta de não fumar o seu cigarro matinal ainda antes de abrir os olhos e não gosta de ter a Fatinha a insistir com ele para substituir a velha chaleira por uma moderna máquina de café, igual aquelas da publicidade que passam na televisão e mostra o "bonzão" Clooney da Fatinha. Mas, como já disse anteriormente, Franklin é um velho teimoso e disciplinado que gosta das suas rotinas e hábitos, daí que goste das suas terças-feiras de manhã, simplesmente, para poder, no próprio dia, não gostar das manhãs de terça-feira, não gostar de acordar às nove horas e quinze minutos, não gostar da chiadeira da sua chaleira elétrica, não gostar de não poder fumar o seu cigarro matinal ainda antes de abrir os olhos e não gostar da Fatinha a insistir consigo para substituir a velha chaleira por uma moderna máquina de café, igual aquelas da publicidade que passam na televisão e mostra o galã do Clooney. Assim, e sem nunca reconhecer isso para si próprio, Franklin, secretamente, gosta das suas terças-feiras de manhã, porque a sua rotina quotidiana de aborrecimento é sempre alterada nesse dia, mesmo constituindo essas alterações uma outra rotina. Mas Franklin dá-se por contente e agradecido. Agradecido ao falecido Sr. Fausto, que foi quem, já conhecendo Franklin desde rapaz pequeno, vendeu-lhe as rifas que o premiaram com a moderna e topo de gama, na altura, chaleira elétrica nas festas das cruzes no longínquo maio de setenta e oito. Saudoso maio de setenta e oito.

Susceptibilidades #1

"Tu. Sim, tu. Tu que estás "desse" lado. Tu que me dás tudo o que eu quero sem eu te pedir nada e, depois, quando preciso de ti, tiras-me o tapete e vais-te embora.. Não sejas assim, sabes muito bem que estou a falar para ti. Vens em pezinhos de lã, sem fazer barulho, nem dar caso ao ocaso. Quem pensas que és? Chegas e vais? Regressas e partes? E eu? E os meus sentimentos? Não venhas com conversas de que sou eu que não te largo. Que te sufoco. Que estou 24 sobre 24 horas "ligado" a ti. Isso não é verdade, sabes que não é. Eu sou independente, não preciso de ti. Mas também não vou negar que me sinto muito melhor se te tiver comigo, e claro que gostava que tivesses sempre disponível para mim. Porque é que vais embora? Porque é que tem de acabar? Não! Não sou eu que te uso! Até me ofendes! Eu é que me sinto usado por ti. Vens todos os meses com a conversa do costume, que vais ficar comigo sempre, desde que eu faça cuidado para não te deixar esgotado. Isso é algo que se diz a quem te sustenta? A quem te paga as contas? Não achas que merecia mais respeito? Pois, não queres saber não é. Vens todos os meses, com a "música" do costume, e eu acabo sempre por me derreter e deixar-me levar na cantiga, e depois, quando me encontro mais vulnerável, fora do meu habitat, fora do meu lar, tu abandonas-me e deixas-me na mão à mercê da "escuridão" e do desconhecido. Vá lá, faz um esforço por mim. Eu prometo que também me vou controlar e tentar não ser tão possessivo. Vais ver que, para o mês que vem, tudo vai ser diferente entre nós. Prometo que vai durar! Que a nossa relação vai durar! Fico à tua espera..."

 

- Odeio tanto quando me acabam os dados móveis. Foda-se!

Os Interessantes - Isabel

Isabel tinha tudo para ser astronauta. Já vivia constantemente na lua, por isso não teria problemas de adaptação ao espaço. No entanto, essa não era a sua vontade.

 

Isabel era uma rapariga normal, não como as outras, mas, no meio de tantas outras, outras tantas no meio de outras, e no meio destas, não tantas outras, mas apenas ela. Era uma rapariga normal sem, no entanto, deixar de ser diferente. Quanto mais igual às outras ficava, mais destoava no meio delas. Tudo bem que meses de solário e calções curtinhos de bombazine fazem com que te destaques em qualquer lado, mas não era esse o caso de Isabel.

 

Isabel tinha sonhos. Sonhava todas as noites com alguma coisa. Nunca lhe disseram foi que só sonhar a dormir não conta nem chega para nada. Mas Isabel sonhava, e, entre as noites e os sonhos sonhados, germinavam as ideias do que iria ser Isabel no dia seguinte ao acordar. Todos os amanhãs eram um novo amanhã, um amanhã diferente. E o amanhã de ontem, não seria igual ao amanhã de hoje, nem este seria igual ao amanhã de amanhã. Isabel não sabia disto, não desta forma, Isabel limitava-se a sonhar.

 

Isabel era apressada. E distraída. E aluada. E despassarada. Tudo a mesma coisa, tudo Isabel. Às vezes chegava a ser rídicula até. O seu mundo, presentemente, e à parte de todo o resto do mundo, era constituído por princípes, fadas, castelos, dragões e Direito da Família. Os primeiros quatro por teimosia dela, o último por teimosia da professora dela. Mas Isabel não desistia. Embora vontade tivesse muitas vezes a sua teimosia não a deixava ir em frente e voltar para trás. Para trás nos sonhos que ela sonhava. O segredo estava em não se preocupar. Às preocupações seriam só para as coisas más mesmo sérias, aqueles problemas irremediáveis com que se deparava no seu dia a dia: "Onde raio é que pus o meu piercing falso do nariz? Não posso sair de casa sem ele. Não quero." (entretanto já a chorar) "Porquê? Porque é que tenho não consigo marcação para o solário hoje? Oh mãeeeeeeeeeeeeeee, ajuda-me!"

 

Mas a mãe de Isabel não ajudava. Era díficil também visto que Isabel era adoptada. Mas nisso tinha orgulho, fizeram um bom trabalho com ela, e ela tinha feito um bom trabalho consigo própria em relação a isso, daí ninguém tirando os seus íntimos sequer imaginarem a adoptividade da sua pessoa. Ontem mesmo, ao dar uma esmola a um peditório, foi agraciada com um elogio pela senhora que fazia a colecta de fundos (basicamente "estava" a comprar umas palavras de apreço, mesmo tendo o feito de livre e espontânea vontade e de coração cheio): "Continue assim menina, cheia de valores". Ela sorriu para a senhora.

 

E depois riu-se para mim: "Sou adoptada tipo?"

 

E eu ria-me para ela: "Valores tu? Só se for na carteira."

 

Mas Isabel tinha valores sim senhor. Agora a questão de saber se estes valores eram próprios ou comuns é outra discussão, mas confesso que há divergência na doutrina quanto à titularidade dos mesmos. Eu, cá para mim, acho que ela está enganada, mas não lhe quis dizer se não ela não se ia calar. Quando ela teima num tema, e não o ultrapassa, lá está, podemos falar para ela à vontade, que ela fica em modo astronauta. 

 

Mas aquilo que a tornava mesmo especial era o facto de Isabel pensar no que mais ninguém pensava. E assim era a nossa relação: Ela falava, falava e falava. Descorria à volta das suas teorias durante horas. E eu ouvia e ria-me. Às vezes com ela. Outras vezes, e sinceramente a maioria delas, ria-me dela.

 

Lá vinha Isabel pela calçada acima:

 

"Acho que as gajas ao serem violadas, deviam simular que estão a gostar, porque para os violadores é mais uma questão de superioridade. Eu, se tivesse a ser violada, fazia tudo para que ele visse que estava a gostar."

 

Ok, Isabel.

A Singular Biografia de Baltazar Gouveia – Parte I

 

            Baltazar Gouveia sempre fora um menino especial. Apercebera-se disso desde tenra idade. Contava ainda as primaveras de existência pelos dedos de uma mão, fosse ela a esquerda ou a direita, visto que Baltazar Gouveia tinha nascido “perfeitinho” e “sãozinho” nas palavras da avó Cremilda, e já possuía uma maturidade anormal para as crianças de cinco anos. Ao contrário dos outros meninos lá da terra, que com ele dividiam o tempo entre as traquinices no recreio e as contas de somar exigidas pela professora Esmeralda, Baltazar Gouveia possuía já um conhecimento intrínseco da sua posição na sociedade e no propósito da sua vinda a este mundo. Desde logo, Baltazar Gouveia sabia que era o único da sua “espécie”, uma vez que lhe foi dito pelo seu paizinho, que em vez de ter vindo numa cegonha como todos os outros meninos lá da terra, no caso dele, Baltazar Gouveia, tinha sido concebido pelo paizinho em conjunto com a mamã, e, dizia-lhe o seu paizinho, que por isso é que ele era tão especial e tão amado. E Baltazar Gouveia não coube em si de felicidade. Ele era especial. Ele era único. E tudo porque fora o paizinho que o fizera junto com a mamã. Ele estava tão feliz, e ficou mesmo muito orgulhoso do paizinho e da mamã, porque embora soubesse que a mamã fosse muito boa a fazer bolos, principalmente aquela torta de laranja que fazia sempre que a prima Matilde vinha visitá-los, e que o paizinho, sendo arquiteto de profissão, fosse o seu trabalho conceber casas (sendo certo que a casa na árvore que tinha feito no Verão passado ruíra nem duas semanas depois de estreada, no entanto, palavra do paizinho que a culpa tinha sido dos esquilos que ao terem a sua casa também naquela casa tenha originado um conflito de vizinhos), o facto de ter sido feito pelos dois só demonstrava o quanto era especial.

           

E essa especialidade ou singularidade do Baltazar Gouveia durou, nada mais nada menos, do que quinze horas e sete minutos e vinte e seis segundos, tempo que passou entre as dezanove horas e trinta minutos, que foi quando, à mesa da cozinha, no inicio do jantar, o paizinho contara a Baltazar Gouveia este segredo, e as dez horas e trinta e sete minutos e vinte e seis segundos da manhã do dia seguinte, contados até ao momento em que Baltazar Gouveia, após ter sido projetado no ar por um “banano” em cheio no nariz, aterrou, redondamente, de cara no chão. E isto explica-se da seguinte forma: o recreio tem início às dez horas e trinta minutos, vai daí que, Baltazar Gouveia “precisou” apenas de sete minutos e vinte e seis segundos para contar a todos os outros meninos lá da terra e que com ele andavam na escolinha, o porquê de ele ser especial e diferente de todos os outros e mal terminou de explicar o motivo de tudo isso, encontrou de frente, mesmo em direcção do seu nariz, em forma de um murro, o motivo de Américo Correia, o “mauzão” e o “capataz” do recreio que, por não ter gostado do motivo de Baltazar Gouveia, e principalmente, por não ter gostado de saber que ele não era especial mas sim o franzininho do “Baisterazar” Gouveia, alcunha dada por ele e seguida pelos outros meninos, achou-se com autoridade legítima para lhe mandar um “banano” (no léxico aprendido em casa pelo seu pai, em forma de sova constante e quotidiana) de forma a dar por encerrada a especialidade ou singularidade de Baltazar Gouveia.

           

E assim, foi de quinze horas e sete minutos e vinte e seis segundos o tempo que durou o primeiro momento de êxtase de Baltazar Gouveia. Momento que, analisado agora a frio após tantos anos, preferia que não tivesse ocorrido. Não porque não gostasse de ser especial, ou porque não conservasse essa ideia de que era diferente dos outros todos, mas sim pelo facto de que o “banano” que levou de Américo Correia tenha lhe partido o nariz, e ainda hoje, com as mudanças de tempo, sente dores de tal forma fortes, que lhe fazem vir as lágrimas aos olhos.

           

- “Bela maneira de ser especial, com o nariz entortado ao murro”. – queixa-se Baltazar Gouveia a olhar-se ao espelho.