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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

Uma Morte Quase Brilhante

Segunda-feira,

Dia 25 de Maio de 2015

 

Já ouviram falar do John Nash? Não? Nem daquele John Nash do Russell Crowe? Também não? Não há problema. Também não estou aqui para vos falar dele. Estou aqui para falar de um sujeito que ouvia vozes e via (ou imaginava) coisas. Óbvio que, lendo assim à partida, poderão pensar que irei vos falar de um qualquer "número" residente no Júlio de Matos. Também não. Podia também fazer uma sentida homenagem à minha terra natal e falar-vos de um qualquer "membro exclusivo" daquele Clube de Elite que é o São João de Deus, mas também não é sobre esses. Pese embora terem todos entre si algo em comum. Foram, ou são ainda, rotulados como tolos, malucos, doidos varridos, esquizofrénicos, paranóicos, dementes, senis, irracionais ou aluados. Temos tantas palavras para "categorizar" aqueles que têm distúrbios mentais. Mas também não quero estar a entrar aqui no domínio técnico, até porque não percebo nada disso. Aquilo que pude aprender, durante anos de observação, dos "tolos" que viviam perto de mim só me permite chegar a uma conclusão: são tolos mas não são burros.

 

E tudo isto para dizer o quê?

 

Para dizer que neste nosso "pequeno" país é tudo vivido ao sabor da temperatura. Não concordam? Têm de concordar. Tivemos um fim de semana completamente preenchido de acontecimentos. E acontecimentos relevantes! Daqueles que acontecem uma vez em muitos anos, e as pessoas simplesmente não se aperceberam porque o Sol lembrou-se de vir com pujança e "roubou" todo o protagonismo da cena. É verdade. Este fim de semana a maioria dos portugueses preferiu, assim, bem pacificamente, jogar à roleta russa com os raios ultra violeta numa qualquer praia da nossa extensa costa lusitana, do que ver tudo o que se passava a partir de cinco quilómetros contados do litoral para o interior (ou seja, da esquerda para a direita, exceptuando aqueles que se encontram no Algarve). Ou seja, as pessoas que se encontravam na praia em Esposende, ignoravam tudo o que se passava de Gemeses para "dentro".

 

Excepção feita aqueles malucos que trocaram a areia nos olhos levantada pelo vento pela terra na boca levantada pelos pneus do Latvala no WRC.

 

Reparem, Portugal este fim de semana quase que se deslocalizou todo para a beira-mar. As praias não foram povoadas, mas sim colonizadas. As pessoas chegavam aos extensos areais ainda de noite, de lanternas na mão à procura do melhor spot para levar com os raios de sol nas "beiças" para depois poderem se gabar a toda a gente que ainda nem chegou o Verão mas que já só precisam do arroz para fazer um arroz de marisco, visto que camarões já eles estão.

 

E porque é que isto é triste? É triste, porque quando isto acontece, a informação gerada por tudo o que se passa no resto do mundo passa-nos ao lado, e os acontecimentos marcantes esfumam-se em pequenas notas de rodapé passadas naqueles jornais dos canais secundários especialistas em mostrar tragédias.

 

E que acontecimentos tão especiais foram esses?

 

Para começar, e começando pelo que de melhor (aqui "melhor" entenda-se num sentido de raro, bizarro, ou surreal) se faz cá no nosso Portugalinho: este fim de semana, um tsunami de desordens bipolares assolou ali aquela zona transmontana de Chaves. Juro. Era vê-los num minuto a deitar foguetes e a rirem-se aos beijos (incluindo beijos homossexuais) e aos abraços. Felizes e contentes, a fazerem juras de amor a pessoas que nunca viram. E um minuto depois, era ver todos a chorar, completamente desolados, o fogueteiro tão triste que já nem fazia a festa, nem lançava os foguetes nem apanhava as canas. A culpa, claramente, que é da Ágata. Ela bem que se mostrou embargada e tristinha com o desfecho do resultado, mas por dentro, entoava alegremente um dos seus muitos "hits", "Agora Chora". Pois bem, agora chorem flavienses, chorem que ninguém vos dá a chucha nem vos dá colinho, nem vos afaga o pêlo. "Estamos" muito concentrados em ganhar cancro na pele ali no Cabedelo.

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Outro exemplo do bom que se faz neste país e é massivamente ignorado: a abertura ao público do Museu Nacional dos Coches. Eu sei que estão a pensar o mesmo que eu. "Wooooooooow", Coches!!! Só que não. Mas devíamos todos, coletivamente como sociedade, sentirmo-nos mal por não termos ido fazer o nosso papel cívico de irmos contribuir financeiramente para minorar o desperdício (e o ridículo) que foi investido naquele museu e dar um sentido aquilo. 

 

Para finalizar, as pessoas estavam tão preocupadas em apanhar sol este fim de semana, que houve alguém que conseguiu levar treze facadas à porta de casa em Gaia e ninguém presenciou. E estamos a falar de Gaia, que fica ali mesmo ao pezinho do mar. Só foi descoberto passado algum tempo pela mulher e pelo filho (que não ouviram nada porque ainda deviam ter sargaço nos ouvidos). Resultado: morreu. Com um bocado de sorte morreu não pelos ferimentos mas sim pela solidão e pelo tédio de ter de se esvair em sangue sozinho.

 

E com isto tudo, porque é que eu comecei a falar dos tolos? Bem, porque este fim de semana morreu também um idoso de oitenta e seis anos nos Estados Unidos da América. E porque é que é noticia? Porque a pessoa em causa, era um professor laureado com o Nobel da Economia, que teve uma carreira lectiva brilhante, e um passado revolucionário activo contra instituições psiquiátricas seculares, onde organizava motins e rebeliões para contestar a hora do lanche, ou a excessiva tonalidade branca das paredes. John Nash faleceu aos oitenta e seis anos, vítima de um sinistro automóvel. Era tolo mas não era burro. Via coisas, imaginava pessoas e ouvia vozes. Era tolo mas não era burro. Já o taxista que o levava e ele e à mulher, provavelmente era tolo e burro, faltava-lhe era o atestado a certificar essa condição.

 

John: "Oh mulher, acho que este taxista não é de confiança."

Alicia: "Tomaste a medicação de manhã? Lá estás tu a ver coisas onde elas não existem. Comporta-te. E deixa de te babar."

 

Era uma vez um John Nash e a mulher. Uma mente brilhante. E uma morte quase brilhante. Só não foi, porque ele já estava a ver isto, só que pensava que era só na sua cabeça. Afinal não foi.