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demagogia de bolso

Convencido . Corrompido . Corrosivo .

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Convencido . Corrompido . Corrosivo .

Um ensaio sobre Saramago

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Fez hoje 5 anos que o mestre partiu. Fez 5 anos que o maior intérprete da língua portuguesa deixou-nos "abandonados" à nossa mediocridade no que toca à escrita em língua portuguesa. É verdade. Basta ver que o Prémio Literário Revelação Augustina Bessa-Luís em 2014 não foi entregue por falta de qualidade das obras submetidas a concurso. Isto é ridículo. E enquanto acharmos que estamos bem servidos com Margarida Rebelo Pinto, Valter Hugo Mãe (ele pode escrever o nome em mínusculas mas eu não!), Pedro Chagas Freitas e escritores do género, não auspício bons caminhos para a literatura portuguesa.

Tudo bem que temos o Lobo Antunes, que espera, pacientemente, a cada livro que publica, a sua cogitação para um eventual Nobel da Literatura. E aí sim, alcançará o apogeu e subirá de patamar e poderemos chamá-lo de mestre. Mas até lá, mestre houve só um. Saramago e mais nenhum. (Parecia agora um daqueles frustrados que vão para a frente da Assembleia da República reclamar com A e B)

 

Irá sempre existir alguém que afirmará, de dentes cerrados, que Camões ou o próprio Pessoa eram muito mais magnânimes do que Saramago na hora de "escrever Portugal". Não concordo. E não concordo por motivos que nada tem a ver com o "trabalho" de uns e outros, mas sim com motivos subjetivos, ligados à personalidade do escritor. Camões escreveu a nossa "Bíblia", consagrada na obra dos Lusíadas, mas reparem, tirando aquela travessia do rio a nado com uma mão enquanto segurava a obra na outra mão, que barreiras é que Camões quebrou? Os Lusíadas, sem pôr em causa a sua inegável qualidade, representam algum marco de rutura com a cultura praticada até então? Não, pelo contrário, até caiu no goto do Rei D.Sebastião que lhe concedeu uma "tensa" até ao final da sua vida. Uma espécie de "royalties" pelos Lusíadas. Ou seja, Camões acabou a vida o mais parecido possível com um funcionário público.

E Fernando Pessoa? Um visionário sem dúvida. Alguém muitos séculos à frente do seu tempo é verdade. Dominava a arte da sedução através da escrita, encantando-nos a cada poema, fosse este seu, ou da "mente" de um heterónimo seu. Mas, que reconhecimento da sua genialidade teve este escritor em vida? À data da publicação da revista Orpheu na qual publicou pela primeira vez os seus textos e poemas escandalizou toda uma sociedade de então. E, praticamente, mais não o fez, remetendo o seu processo de criação para o foro privado, privando toda a gente da sua genialidade e, privando-se a si de toda a gente, o que de certo contribui em boa medida para a sua partida precoce deste mundo. Se Fernando Pessoa fosse cantor, seria um vocalista de uma banda de rock de certeza, e viveria perpetuado no mito que envolve todas as estrelas desse meio que partem deste mundo cedo demais. Mas lá está, o impacto, mais do que merecido obviamente, de Fernando Pessoa na literatura portuguesa só o veio a acontecer postumamente, com a posterior descoberta de muitos poemas, textos e cartas inéditas no meio de todo o seu espólio. A mesma genialidade que o condenou a uma vida de isolamento e segregação em vida, foi a mesma que serviu de expiação e de caminho ao estrelato já depois de morto. 

 

Saramago não foi nem um nem outro. Foi sim um contestatário. Foi, ao mesmo tempo, um ídolo e um herege. E foi, essencialmente, um homem simples e modesto. Uma sagacidade do tamanho do mundo comprimida numa alma do tamanho de um tronco de uma figueira de uma terrinha qualquer na sua Golegã. Foi mecânico, jornalista, tradutor, funcionário público e por aí em diante, sem no entanto, nunca desistir de escrever. Escrever aquilo que nunca tinha sido pensado. E isso mais do que fama, ou melhor, falsa fama, trouxe-lhe dissabores. À data da publicação de "O Último Evangelho segundo Jesus Cristo", José Saramago viu-se atacado por uma sociedade tacanha ainda presa às garras do conservadorismo religioso, e sob estes holofotes viu o seu talento renegado pelo então senhor primeiro ministro Cavaco Silva, que pau mandado que era (e sempre foi, fosse qual fosse o seu cargo institucional) cedeu à pressão dos enraivecidos membros de um clero em claro declínio na nossa sociedade. Mas Saramago aguentou o golpe, e num gesto de autoritarismo, vaidade e resistência, auto exilou-se num cantinho ao pé de nós, chamado de Lanzarote, de onde fez sua casa. Casa de habitação. Porque o seu lar, seria sempre onde estivesse o seu coração. E esse, estava na Golegã que o viu nascer, estava em Portugal, sua pátria e sua língua. O reconhecimento tardou mas chegou, primeiro o Prémio Camões (1995), seguido da maior distinção literária do mundo, o Prémio Nobel (1998), que assim permitiu, com inteira justiça, a Saramago conquistar a sua "imortalidade" no Olimpo dos escritores dos nossos dias.

Saramago chegou a ser odiado por aqueles que acabaram a amá-lo. E, ainda assim perdoou-os, e fez-lo continuando o seu trabalho, para que o seu legado nos fosse deixado e nos servisse de exemplo, de farol, de poço de sabedoria e de inspiração para ambicionarmos fazer sempre mais e melhor. Por nós. Por Portugal.

 

"E que não se tenha pressa, mas que não se perca tempo".